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Abdias do Nascimento e o Imperador Jones de 1945

Aos 30 anos, ele juntou operários e empregadas domésticas no Rio e levou um elenco negro ao palco do Theatro Municipal.

Atores negros encenam O Imperador Jones no palco do Theatro Municipal do Rio.

Rio, 1945: o TEN no Theatro Municipal

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Aos 30 anos, o economista e poeta Abdias do Nascimento reuniu no centro do Rio de Janeiro um grupo que nenhum diretor de teatro da cidade chamaria para um ensaio. Era outubro de 1944, e ali estavam operários, empregadas domésticas, contínuos de repartição e moradores de morro.

Quase todos eram negros. Muitos nunca tinham sentado numa plateia, e alguns ainda não sabiam ler as falas que iam decorar.

Abdias deu ao grupo um título sem rodeio: Teatro Experimental do Negro, o TEN. A proposta cabia numa frase. Ator negro faria o protagonista, num palco profissional, com texto de peso.

Na época, o teatro brasileiro reservava aos negros a cozinha e a piada. Eram a criada, o moleque de recado, o bêbado da cena cômica. Quando a peça pedia um herói negro, um ator branco escurecia o rosto com rolha queimada.

O texto escolhido para a estreia foi O Imperador Jones, do americano Eugene O'Neill. Conta a história de um carregador de trem que foge da cadeia e vira tirano de uma ilha do Caribe, até ser caçado na floresta pelo povo que explorou.

O papel principal ficou com Aguinaldo Camargo, advogado e funcionário público, amigo de Abdias desde os anos de São Paulo. Ele também nunca tinha atuado profissionalmente.

Faltava o palco. Abdias quis o Theatro Municipal, a casa de ópera da elite carioca, com escadaria de mármore e lustres de cristal. Um grupo de amadores negros ali parecia, aos olhos da cidade, um pedido fora de lugar.

A direção da casa resistiu, e o pedido subiu até o governo de Getúlio Vargas. A autorização saiu. Em 8 de maio de 1945, data em que a Europa festejava a rendição alemã, o pano subiu.

A plateia viu um elenco negro ocupar o palco mais nobre do país, com um negro no centro da cena do começo ao fim. Os jornais trataram a noite como acontecimento.

A ideia daquela estreia, porém, tinha nascido quatro anos antes e a milhares de quilômetros, numa poltrona de teatro em Lima, no Peru.

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I  A Vida de Hoje

A noite no teatro de Lima

Abdias do Nascimento nasceu em 14 de março de 1914, em Franca, no interior de São Paulo. A mãe, Georgina, fazia doces para vender. O pai, José, era sapateiro e tocava bombardino na banda da cidade.

Os avós tinham nascido na escravidão, abolida apenas 26 anos antes do nascimento do neto. Na Franca da infância de Abdias, a lembrança do cativeiro ainda morava nas casas vizinhas.

Aos 15 anos, ele foi para a capital e se alistou no Exército. Ali completou os estudos e, no começo dos anos 1930, entrou para a Frente Negra Brasileira, a maior organização política negra do país naquela década.

A Frente Negra protestava contra barbearias, clubes e rinques de patinação que barravam negros na porta. Abdias participou desses atos, e um deles terminou em briga com policiais. Ele deixou o Exército e foi processado.

Mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1938, concluiu o curso de economia. Escrevia poemas e frequentava rodas de escritores, sem emprego fixo.

Em 1941, partiu numa viagem pela América do Sul com um grupo de poetas brasileiros e argentinos que se chamava Santa Hermandad Orquídea (Santa Irmandade da Orquídea). Viajavam com pouco dinheiro, recitando versos e dormindo onde dava.

Em Lima, o grupo foi ao Teatro Municipal ver O Imperador Jones. O protagonista, Brutus Jones, era um homem negro. Quem o interpretava era o ator argentino Hugo D'Evieri, branco, com o rosto pintado de preto.

Abdias saiu do teatro com uma pergunta que o perseguiu na volta: por que, no Brasil, um negro nunca podia subir ao palco para viver um papel como aquele?

A resposta que encontrou foi prática. Se nenhum teatro do país abria espaço, ele montaria um teatro. Na volta, porém, a polícia o esperava.

O processo dos tempos da Frente Negra tinha virado condenação. Abdias foi preso e cumpriu pena na Penitenciária do Carandiru, em São Paulo.

Na cadeia, pôs a ideia à prova antes de levá-la ao público. Reuniu presos e criou o Teatro do Sentenciado, que escrevia e encenava peças dentro da penitenciária.

Os detentos faziam os cenários com o que havia à mão e ensaiavam nos horários de pátio. Abdias aprendeu ali a dirigir gente sem formação, a cortar texto e a ensaiar com quem trabalhava o dia inteiro.

Solto, voltou ao Rio em 1944. Tinha 30 anos, uma pergunta e um método testado atrás das grades.

 
 

II  O Momento que Virou

O elenco que aprendeu a ler

O Teatro Experimental do Negro foi fundado em 13 de outubro de 1944. A sede foi emprestada: uma sala da União Nacional dos Estudantes, na Praia do Flamengo.

O anúncio correu de boca em boca, em fábricas, cozinhas de casas de família e terreiros. Apareceram costureiras, faxineiras, operários, estudantes e desempregados.

Abdias percebeu logo o primeiro obstáculo. Parte do grupo não sabia ler. Antes de ensaiar uma fala, era preciso ensinar as letras.

O TEN abriu então um curso de alfabetização, conduzido pelo escritor e professor Ironides Rodrigues. As aulas eram à noite, depois do expediente. Junto com o abecedário vinham noções de história e de cultura geral.

O primeiro texto que muitos daqueles alunos aprenderam a ler de ponta a ponta foi o próprio papel que iam interpretar.

Faltava ainda a licença da peça. Abdias escreveu a Eugene O'Neill, que já tinha o Nobel de Literatura de 1936, contando o que pretendia fazer com um elenco de amadores negros no Brasil.

O'Neill respondeu autorizando a montagem e abriu mão dos direitos autorais. Para um grupo sem caixa, a carta valia como patrocínio.

Os ensaios duraram meses. O elenco trabalhava de dia e ensaiava de noite, muitas vezes chegando de ônibus depois de dez horas de serviço.

Entre as mulheres do grupo estava Ruth de Souza, uma jovem carioca, filha de lavadeira, que ouviu falar do grupo e foi procurar Abdias. Ela entrou no elenco da estreia.

Aguinaldo Camargo estudou Brutus Jones com o cuidado de quem prepara um processo. A peça é quase um monólogo: o personagem passa boa parte do tempo sozinho, em fuga pela mata, assombrado pelos próprios fantasmas.

Na noite de 8 de maio de 1945, o Theatro Municipal lotou. Na plateia havia a elite de sempre, curiosa, e gente que nunca tinha atravessado aquela porta.

Quando o pano baixou, os aplausos vieram de pé. Os críticos dos jornais cariocas elogiaram a força de Aguinaldo Camargo no papel.

Para o elenco, a noite mudou a vida prática. Empregadas domésticas e operários tinham sido protagonistas no palco mais nobre do país, com os próprios nomes impressos no programa.

A temporada no Municipal foi curta, mas bastou para tirar o grupo do anonimato. Convites chegaram de clubes, associações e de outros palcos da cidade, e novos voluntários bateram à porta da sala do Flamengo pedindo vaga no curso e no elenco.

O TEN não parou na estreia. Logo depois, montou outras peças de O'Neill, como Todos os Filhos de Deus Têm Asas, e começou a encomendar textos de autores brasileiros.

 

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III  O Que Ficou

O jornal Quilombo e o Senado

Em 1948, o grupo lançou o jornal Quilombo, dirigido por Abdias. Saíram dez números até 1950, com coluna de denúncia de racismo, notícia de teatro e uma seção sobre a história da África.

Abdias escreveu a própria peça, Sortilégio, sobre um advogado negro que foge da polícia e enfrenta, num terreiro, os deuses que tinha renegado. A censura segurou o texto durante anos.

Sortilégio só estreou em 1957, no mesmo Theatro Municipal, com o TEN no palco. A temporada fechou um ciclo que tinha começado com uma peça estrangeira.

Do grupo saíram atrizes e atores que o país passou a reconhecer. Ruth de Souza foi indicada ao prêmio de melhor atriz no Festival de Veneza de 1954, pelo filme Sinhá Moça, a primeira brasileira lembrada pelo júri.

Léa Garcia, outra atriz formada no TEN, protagonizou Orfeu Negro, filme rodado no Rio que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 1959.

O grupo que tinha começado numa sala emprestada formou a primeira geração de atores negros protagonistas do teatro e do cinema brasileiros.

O TEN também organizou, em 1950, o Primeiro Congresso do Negro Brasileiro, no Rio, com pesquisadores e militantes discutindo emprego, educação e moradia.

A ditadura militar fechou o caminho. Em 1968, Abdias foi aos Estados Unidos com uma bolsa e não voltou por 13 anos. Lecionou na Universidade do Estado de Nova York, em Buffalo, e pintou telas inspiradas nos orixás.

Em Buffalo, Abdias desenvolveu a ideia que chamou de quilombismo, uma proposta de organização política inspirada nos quilombos, as comunidades formadas por escravizados fugidos no Brasil colonial. O livro O Quilombismo saiu em 1980.

O TEN se desfez nesse período. Sem Abdias, o grupo perdeu a direção e a sede, e as montagens pararam.

Abdias voltou ao Brasil em 1981. Em 1983, assumiu como deputado federal pelo Rio de Janeiro e apresentou projetos contra a discriminação racial no emprego e na escola. Entre 1997 e 1999, ocupou uma cadeira no Senado.

Em 2010, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz. Viveu até 23 de maio de 2011, aos 97 anos, no Rio de Janeiro.

O acervo do TEN, com fotos, programas e cartas, ficou guardado pelo Ipeafro, o instituto de pesquisa fundado por Abdias e mantido pela viúva, Elisa Larkin Nascimento.

“Que papel você nunca viu um ator negro interpretar no palco?”

Em 2004, na revista Estudos Avançados, da USP, Abdias do Nascimento definiu a missão do grupo que fundou aos 30 anos: “resgatar, no Brasil, os valores da cultura negro-africana”.

 
 
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