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A viúva que terminou o Livro de Han
Com cerca de 45 anos, a letrada Ban Zhao herdou a história inacabada do irmão preso e completou as partes que ninguém na corte sabia fazer.
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Luoyang, ano 92: a biblioteca do Pavilhão Leste
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Com cerca de 45 anos, a letrada Ban Zhao cruzou os portões do palácio de Luoyang, capital da dinastia Han, chamada pelo imperador He para trabalhar no Pavilhão Leste (Dongguan, a biblioteca onde a corte guardava os arquivos do império).
Era o ano 92. Semanas antes, o irmão mais velho dela, o historiador Ban Gu, tinha morrido numa cela da capital, aos 60 anos. Sobre a mesa de trabalho dele ficou um livro sem as últimas partes.
O livro era o Hanshu (Livro de Han), a história da dinastia desde a fundação, em 206 antes de Cristo, até a queda do usurpador Wang Mang, no ano 23. O pai dos dois, Ban Biao, tinha começado a obra; Ban Gu passou mais de duas décadas nela.
Faltavam as partes mais trabalhosas. Oito tabelas cronológicas, grades que alinhavam em colunas reis vassalos, nobres, ministros e os anos de cada cargo, estavam incompletas. O tratado de astronomia, que registrava eclipses, cometas e o movimento dos planetas por dois séculos, também.
A corte tinha motivo para não abandonar a obra. Na China Han, a história oficial servia de manual de governo: o imperador consultava os erros dos antecessores, e os astrônomos liam no céu avisos sobre o trono. Um livro pela metade deixava a dinastia sem espelho.
Ban Zhao não tinha cargo nem título, e era viúva havia muitos anos. Tinha outra credencial. Crescera na casa onde o livro nasceu, lendo os rascunhos do pai e do irmão, e dominava os clássicos, as contas do calendário e a letra miúda dos arquivos.
Ela passaria os anos seguintes numa sala cheia de tiras de bambu (os livros da época, escritos em varetas amarradas por cordão), conferindo datas de nomeação e de eclipse. Para entender como uma mulher chegou a esse posto numa corte que não dava cargo a mulheres, é preciso voltar à casa dos Ban, em Anling, perto da antiga capital Chang'an.
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I A Vida de Hoje
Tiras de bambu na casa dos Ban
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Ban Zhao nasceu por volta do ano 45, em Anling, no condado de Fufeng, a poucos quilômetros de Chang'an, a atual Xi'an. Algumas fontes empurram o nascimento para 49; o ano exato não ficou registrado. Na vida adulta, usou também o nome de cortesia Huiban (o nome que um letrado adotava fora da família).
Era a filha caçula de Ban Biao, funcionário da corte e historiador. Os irmãos mais velhos eram gêmeos, nascidos em 32: Ban Gu, que seguiria os livros, e Ban Chao, que seguiria as armas e passaria três décadas como general nas Regiões Ocidentais (os oásis da Ásia Central, na rota da seda).
A família já tinha uma mulher letrada na memória. A tia-avó Ban Jieyu, consorte do imperador Cheng um século antes, deixou poemas que a corte ainda recitava, entre eles a Canção do Leque, sobre a favorita trocada por outra.
Ban Biao trabalhava numa continuação do Shiji (Registros do Historiador), a grande crônica que Sima Qian tinha fechado por volta de 90 antes de Cristo. A casa vivia de tiras de bambu, de copistas e de discussões sobre datas. O pai morreu em 54, quando Ban Zhao tinha perto de nove anos.
Fan Ye, compilador do Hou Hanshu (Livro dos Han Posteriores), escreveu no século V que ela tinha "erudição vasta e talento alto". Ninguém registrou quem a ensinou; as fontes só mostram o resultado, uma leitora dos clássicos confucianos à altura dos irmãos.
Aos 14 anos, casou com Cao Shishu, homem do mesmo condado. Ele morreu cedo, em data que as fontes não dão, e ela nunca voltou a casar. Criou o filho, Cao Cheng, e passou a assinar pelo sobrenome do marido, como mandava o costume.
Nesses anos, Ban Gu herdou o manuscrito do pai. Por volta de 62, um vizinho o denunciou por reescrever por conta própria a história do Estado, crime grave, e ele foi preso em Chang'an. Os rascunhos seguiram para o palácio como prova.
A obra que Ban Zhao herdaria já tinha levado o irmão à prisão uma vez. Escrever a história da dinastia sem ordem do trono era crime; com a ordem, virava cargo.
Ban Chao cavalgou até Luoyang e defendeu o irmão diante do imperador Ming. O imperador leu os rascunhos, gostou, soltou Ban Gu e o nomeou para o Lantai (Terraço das Orquídeas, o arquivo do palácio), agora com encomenda oficial.
Dali em diante, Ban Gu escreveu com salário da corte. Por volta de 82, o livro estava quase inteiro. Em 89, porém, ele deixou a mesa para acompanhar o general Dou Xian numa campanha contra os xiongnus, povo nômade das estepes ao norte, e redigiu a inscrição de vitória gravada no monte Yanran.
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II O Momento que Virou
Luoyang, 92: o livro órfão
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Dou Xian era irmão da imperatriz viúva Dou, que governava em nome do imperador He, então um menino. A vitória nas estepes deixou o general poderoso demais. Em 92, o imperador, com 13 anos, e o eunuco Zheng Zhong armaram um golpe no palácio e cercaram a família Dou.
Dou Xian recebeu ordem de se matar. Os homens do círculo dele foram caçados, e Ban Gu estava na lista. Quem o prendeu foi Zhong Jing, prefeito de Luoyang, que guardava rancor dele desde que um criado de Ban Gu o insultara na rua. Ban Gu morreu na prisão naquele mesmo ano.
O imperador He mandou buscar a irmã. A ordem era direta: terminar o Livro de Han na biblioteca do Pavilhão Leste, com acesso aos arquivos que Ban Gu tinha usado.
Ban Zhao encontrou cem capítulos planejados: 12 de anais dos imperadores, 10 tratados, 70 de biografias e as oito tabelas. As tabelas eram o ponto fraco. Cada uma cruzava anos e pessoas em grade, e um erro de data numa linha desalinhava a coluna inteira.
Entre elas estavam a Tabela dos Reis Vassalos, a Tabela dos Marqueses e a Tabela dos Cargos, que listava quem ocupou cada ministério e por quanto tempo. A mais estranha era a Tabela das Pessoas Antigas e Modernas: perto de 2.000 figuras da história chinesa, de sábios lendários a tiranos, distribuídas em nove graus de mérito.
O tratado de astronomia exigia outro saber. Registrava cada eclipse, cometa e conjunção de planetas desde a fundação da dinastia, e ligava os sinais do céu a acontecimentos na corte. Para fechar as contas, ela trabalhou com Ma Xu, erudito do mesmo condado de Fufeng.
As fontes dizem que os dois concluíram o tratado, sem dividir o que coube a cada um. Essa partilha ninguém anotou na época, e nenhum manuscrito com a letra de um ou de outro sobreviveu.
O Livro de Han saiu em nome de Ban Gu. As tabelas e o céu, as partes de conta mais pesada, foram fechadas por uma mulher sem cargo, numa corte que só dava cargo a homens.
O texto pronto trouxe outro problema. Ban Gu escrevia com caracteres arcaicos e alusões aos clássicos, e poucos letrados conseguiam ler o livro sem guia. Fan Ye registrou no Hou Hanshu: "Quando o Livro de Han saiu, muitos não o entendiam."
A solução foi a própria Ban Zhao. O erudito Ma Rong, irmão de Ma Xu e mais tarde o maior comentador dos clássicos da sua geração, se ajoelhou sob o pavilhão da biblioteca para receber dela a leitura do texto, trecho por trecho.
O imperador He também a quis por perto. Nomeou-a professora da imperatriz e das consortes, que passaram a chamá-la de Cao Dagu (Dagu quer dizer "grande senhora", título de respeito somado ao sobrenome do marido). Era a primeira historiadora da China com trabalho reconhecido pela corte.
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