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ED 010

A tinta que Nise pôs na mão dos internos

Em setembro de 1946, Nise da Silveira se recusou a aplicar eletrochoque no Engenho de Dentro e foi mandada para o setor que ninguém queria.

Uma mesa de ateliê de hospital com tubos de tinta abertos, pincéis usados e uma prancha de papel em branco, sob a luz de uma janela alta.

Tinta e pincel sobre a mesa do ateliê

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Em 1946 a psiquiatria brasileira tinha três respostas para o mesmo problema. O eletrochoque, o coma insulínico e a lobotomia, aplicados em série nos hospitais públicos, com fila de espera e agenda cheia.

As três chegaram da Europa na década anterior e foram recebidas como progresso. O coma insulínico saiu de Viena em 1933, a leucotomia do português Egas Moniz é de 1935, e o eletrochoque foi aplicado pela primeira vez em Roma, em 1938.

O Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, era o maior hospital psiquiátrico do país. Enfermaria lotada, roupa igual, pátio cercado, e a alta que quase nunca chegava.

O nome da instituição mudou algumas vezes, de Hospício Nacional de Alienados a Centro Psiquiátrico Nacional e depois Centro Psiquiátrico Pedro II. O endereço no subúrbio seguiu o mesmo.

O interno chegava por encaminhamento de família, de delegacia ou de outro hospital, e a permanência se contava em anos. Muita gente entrava jovem e envelhecia lá dentro.

Dentro da hierarquia daquele hospital havia um andar de baixo. A terapia ocupacional era tratada como técnica subalterna, boa para ocupar a mão do interno enquanto o tratamento de verdade acontecia em outra sala.

O setor ficava longe do prédio central e vivia sem verba, sem material e sem médico interessado. Quem era mandado para lá entendia o recado sem precisar de ofício: tinha saído do centro da decisão.

Recusar o choque naquele ambiente não passava por divergência técnica. Passava por insubordinação, e custava enfermaria, custava interno e custava voz nas reuniões de serviço.

Também não havia muito espaço para discutir método em público. Os congressos da época mediam resultado em número de sessões e em tempo de internação, não no que a pessoa levava para fora da sala.

A vida de hoje é a de uma médica alagoana de 41 anos que voltou ao serviço público depois de sete anos afastada, foi lotada nesse hospital e avisou à chefia que não ia aplicar nenhum dos três.

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I  A Vida de Hoje

A estante de livros que virou denúncia

Ela se formou médica em 1926 e passou 455 dias presa. Veja o que a esperava no Engenho de Dentro em 1946.

Nise Magalhães da Silveira entrou na Faculdade de Medicina da Bahia ainda adolescente e se formou em 1926 como a única mulher de uma turma inteira de homens. Escolheu a especialidade que a faculdade tratava como periferia da medicina.

Nasceu em 15 de fevereiro de 1905, em Maceió. O pai, Faustino Magalhães da Silveira, era professor de matemática e jornalista. A mãe, Maria Lídia, era pianista.

Depois da morte do pai, em 1927, mudou para o Rio de Janeiro e foi atrás de neurologia e psiquiatria. Entrou no serviço público por concurso e foi trabalhar no Hospício Nacional de Alienados, na Praia Vermelha.

Em fevereiro de 1936 foi presa pela primeira vez e solta no mesmo dia. Em 26 de março voltou a ser presa, e dessa vez ficou.

A denúncia partiu de uma serviçal do hospital, que reparou nos livros socialistas da estante dela. Era o ano seguinte ao levante comunista de 1935, e a repressão do governo Vargas trabalhava por lista de nomes.

Foram 455 dias presa, no complexo da rua Frei Caneca, na cela conhecida como Sala 4. A Sala 4 foi a primeira prisão política feminina do país.

Dividiu a cela com Eneida de Moraes, Elisa Berger e Olga Benário Prestes, que estava grávida. As quatro passaram mais de um ano sob a mesma janela alta.

Saiu em 21 de junho de 1937 e recebeu a conta junto: foi exonerada do cargo no hospital.

Vieram sete anos fora do serviço público. Viveu de forma clandestina em cidades do Nordeste, ao lado do sanitarista Mário Magalhães da Silveira, longe de qualquer enfermaria.

A anistia chegou em 1944. Nise foi readmitida e mandada para o Centro Psiquiátrico Nacional, no Engenho de Dentro, o hospital que concentrava a maior parte dos internos do país.

O que ela encontrou lá era o método corrente. O interno entrava na sala, recebia a sessão, voltava para a enfermaria, e o prontuário registrava a contagem.

Ela tinha 41 anos, um diploma de 1926 e uma ficha de presa política. Nenhuma das duas coisas dava margem para escolher enfermaria ou negociar horário.

A recusa dela não nasceu de teoria nova nem de escola estrangeira. Nasceu de ver a sala por dentro, e de decidir que não colocaria a mão naquilo.

Ela disse que não aplicaria nenhum dos três procedimentos. Nem o eletrochoque, nem o coma insulínico, nem a lobotomia, e disse na frente da chefia.

 
 

II  O Momento que Virou

O ateliê que abriu no setor abandonado

O momento que virou não foi a recusa em si. Foi 9 de setembro de 1946, quando o setor que servia de castigo abriu um ateliê de pintura e modelagem e começou a distribuir material para quem quisesse.

A punição por dizer não veio rápido e veio no formato da casa: transferência para a terapia ocupacional, o único lugar do hospital onde ninguém disputava vaga.

Em meados de 1946 ela assumiu a Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, a STOR. O setor estava parado, com material vencido e sala fechada.

Nise reabriu o espaço por atividades. Encadernação, marcenaria, jardinagem, costura, tapeçaria, modelagem e pintura, cada uma com o próprio ateliê e o próprio monitor.

O ateliê de pintura nasceu de um pedido de dentro da casa. Almir Mavignier, funcionário do hospital de 21 anos, pintava por conta e procurava um serviço que lhe desse tempo de trabalhar na própria obra.

Ele propôs o ateliê a ela, e ela disse sim. A inauguração foi em 9 de setembro de 1946, no Centro Psiquiátrico Nacional.

A escolha de quem entrava era feita no olho. Mavignier andava pelas enfermarias, olhava rosto, puxava prontuário e convidava quem parecia ter vontade de pegar no pincel.

O material era pouco e a técnica se ajustava ao orçamento. Água para o guache e para a aquarela, terebintina para o óleo, e óleo sobre papel-cartão quando a tela não cabia na verba.

A regra de dentro do ateliê era curta. Nenhum tema sugerido, nenhuma correção, nenhuma aula, e o monitor por perto sem opinar sobre o que estava no papel.

Nise deixou de escrever paciente e passou a escrever cliente. A palavra mudou o lugar da pessoa na frase, e ela usou o termo pelo resto da vida.

"Nessa apologia do afeto, não há a ingenuidade excessiva de considerar fácil satisfazer as grandes necessidades afetivas de seres que foram tão machucados, e socialmente rejeitados."

Nise da Silveira, Imagens do Inconsciente, 1981

Os nomes começaram a aparecer nas paredes do setor. Emygdio de Barros, que recebia as telas maiores, Carlos Pertuis, Adelina Gomes, Raphael Domingues, Fernando Diniz, Isaac Liberato.

O volume dá a medida do que estava represado. Pertuis produziu mais de 21.500 trabalhos ao longo dos anos, e Adelina Gomes chegou perto de 17.500.

Em 4 de fevereiro de 1947 o material saiu do hospital pela primeira vez. Foram 245 obras expostas no salão do Ministério da Educação e Saúde, no centro do Rio.

O crítico Mário Pedrosa entrou naquela sala e não saiu mais do assunto. Em 31 de março de 1947 ele deu a conferência de encerramento da mostra, publicada no mês seguinte no Correio da Manhã.

O título da conferência era "Arte, necessidade vital", e virou o nome do primeiro livro dele, de 1949. A tese central era simples: a atividade artística não depende de escola, e alcança qualquer pessoa.

O que virou naquele setembro não foi a técnica psiquiátrica do país, que seguiu igual por décadas. Foi o estatuto do que os internos produziam, que deixou de ser passatempo de sala vazia e passou a ser obra com autor e data.

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III  O Que Ficou

O acervo de 350 mil imagens

No acervo: o Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado em 20 de maio de 1952, dentro do próprio hospital, no Engenho de Dentro, e hoje guarda cerca de 350 mil obras, com mais de 127 mil já registradas no Iphan.

Na sala de exposição: em 12 de outubro de 1949, 179 trabalhos abriram a mostra "9 artistas de Engenho de Dentro" no Museu de Arte Moderna de São Paulo, com curadoria de Mário Pedrosa.

No arquivo: o acervo pessoal dela recebeu registro no programa Memória do Mundo, da Unesco, na mesma lista de documentos que o mundo decidiu não perder.

Em 1950 a produção do ateliê atravessou o Atlântico. A mostra "Arte psicopatológica" levou 91 pinturas e desenhos e 9 esculturas ao I Congresso Internacional de Psiquiatria, em Paris.

Em 1954 Nise escreveu para Carl Gustav Jung, na Suíça, com fotografias das mandalas que apareciam repetidas nas pinturas dos clientes. Ele respondeu, e a troca de cartas virou canal aberto.

Em abril de 1957 ela estava em Zurique, estudando no instituto fundado por ele. Em 2 de setembro daquele ano Jung abriu em pessoa a mostra com as pinturas do ateliê, que ocupou cinco salas do II Congresso Internacional de Psiquiatria.

Em 1956 ela fundou a Casa das Palmeiras, no Rio, primeira clínica do país a receber ex-internos em regime aberto, sem leito e sem trancar porta.

Almir Mavignier ficou cinco anos no ateliê e depois foi para a Europa, onde virou referência de arte concreta e de arte óptica e deu aula na escola de Ulm, na Alemanha.

O ateliê também puxou para dentro do hospital gente como Abraham Palatnik e Ivan Serpa, que estavam começando, e a conversa entrou na formação da arte concreta carioca.

Nise publicou "Imagens do Inconsciente" em 1981, "O Mundo das Imagens" em 1992 e "Gatos, a Emoção de Lidar" em 1998, sempre com as obras dos clientes reproduzidas ao lado do texto.

Partiu em 30 de outubro de 1999, no Rio de Janeiro, aos 94 anos, cinco anos depois de a lei da reforma psiquiátrica começar a tramitar no Congresso.

O hospital que a empurrou para o fundo do terreno hoje se chama Instituto Municipal Nise da Silveira, e o museu funciona no mesmo endereço, aberto à visita.

Em 2015 a história virou o filme "Nise, o Coração da Loucura", dirigido por Roberto Berliner, com Glória Pires no papel dela, que levou o prêmio principal do festival de Tóquio.

O eletrochoque continua em uso na psiquiatria, hoje sob anestesia e com protocolo. O setor que serviu de castigo virou um acervo de 350 mil imagens, e o hospital que mandou a médica para lá acabou adotando o nome dela.

"Que trabalho te empurraram como castigo, e você ainda não olhou de perto?"

 
 
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Quem propôs a Nise da Silveira a criação do ateliê de pintura no Engenho de Dentro, em 1946?

AMário Pedrosa, crítico que visitou o hospital
BAlmir Mavignier, funcionário do hospital de 21 anos
CEmygdio de Barros, interno que já pintava
DEgas Moniz, médico português da lobotomia

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