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A sombra que mediu a Terra

Aos 36 anos, o bibliotecário Eratóstenes comparou uma sombra em Alexandria com um poço de Siena e calculou a volta do planeta.

Vara vertical fincada num pátio de pedra em Alexandria, sombra curta ao meio-dia, rolos de papiro ao lado.

Alexandria, 240 a.C.: a vara de Eratóstenes

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Aos 36 anos, o bibliotecário Eratóstenes de Cirene fincou uma vara reta no chão de Alexandria, ao meio-dia do solstício de verão, e mandou medir a sombra que ela deixava na pedra.

Era por volta de 240 a.C. A cidade que Alexandre, o Grande, fundou no delta do Nilo guardava a maior coleção de livros do mundo grego, e Eratóstenes cuidava dela por nomeação do rei Ptolomeu III. Os rolos de papiro chegavam de todo o Mediterrâneo, e alguns traziam notícias de lugares que ninguém ali tinha visitado.

Uma dessas notícias vinha de Siena, a atual Assuã, no sul do Egito. Lá, contavam os relatos, havia um poço fundo onde, ao meio-dia do dia mais longo do ano, a luz descia reta até a água. O fundo brilhava. Nenhuma parede fazia sombra.

Para um viajante, aquilo era curiosidade. Eratóstenes leu como dado. Se em Siena o Sol ficava a pino (exatamente sobre a cabeça) e em Alexandria, na mesma hora, uma vara ainda projetava sombra, a luz chegava às duas cidades com inclinações diferentes. Com raios paralelos vindos de um Sol muito distante, só um chão curvo explicava a diferença.

Segundo o astrônomo Cleomedes, que registrou o método séculos depois, a sombra de Alexandria marcava um ângulo de 7 graus e um quinto. Eratóstenes fez a conta: esse ângulo corresponde a um cinquenta avos de uma volta completa, de 360 graus.

Faltava a distância entre as cidades. Os medidores do reino davam 5.000 estádios (a unidade grega de distância, com valor que variava de região para região). Ele multiplicou por cinquenta.

Chegou a 250.000 estádios para a volta inteira do planeta. Com uma vara, um poço e um relato de caravana, um funcionário de biblioteca tinha medido a Terra sem sair da cidade. Para entender como alguém chegou a pensar assim, é preciso voltar a Cirene, a colônia grega na costa da Líbia onde o menino nasceu.

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I  A Vida de Hoje

Cirene, Atenas e as estantes do rei

Eratóstenes de Cirene nasceu por volta de 276 a.C., numa cidade grega fundada no norte da África, onde hoje fica a Líbia. Filho de Aglau, segundo a enciclopédia bizantina Suda, estudou primeiro com o gramático Lisânias, na própria terra natal.

Jovem, seguiu para Atenas, então a capital da filosofia. Frequentou os estoicos (a escola que pregava viver conforme a razão) com Aríston de Quios e os platônicos da Academia com Arcesilau. Escrevia poesia, tratados de filosofia e estudos de cronologia.

Os versos dele circulavam entre os literatos. O poema Hermes, sobre o deus menino que sobe ao céu e vê a Terra dividida em faixas de clima, foi citado por gramáticos durante séculos.

A fama atravessou o mar. Por volta de 245 a.C., Ptolomeu III Evérgeta o chamou a Alexandria para educar o filho, o futuro Ptolomeu IV, e para dirigir a Biblioteca, na vaga deixada pelo poeta Apolônio de Rodes.

A Biblioteca funcionava como centro de pesquisa pago pela coroa. Os navios que atracavam no porto tinham os livros recolhidos para cópia: o original ficava nas estantes, a cópia voltava ao dono. Em volta dos rolos viviam poetas, médicos e matemáticos sustentados pelo rei.

Eratóstenes não era especialista numa área só, e foi por essa largura que enxergou a medição. Quem cuidava de mapas, calendários e geometria na mesma mesa juntava dados que ninguém cruzava.

Os colegas o apelidaram de Beta, a segunda letra do alfabeto grego, conta a Suda: ele ficava em segundo lugar em todas as áreas, sem liderar nenhuma. Outros o chamavam de Pentatlo, o atleta que disputa cinco provas.

O apelido tinha ironia, e a obra desmente o desdém. Ele criou o crivo (peneira) de Eratóstenes, método para achar números primos riscando os múltiplos de cada número numa lista. Escreveu a Cronografia, que tentava datar os fatos desde a Guerra de Troia.

A geografia virou a paixão principal. Eratóstenes usou a palavra geographia (escrita da Terra) como título de obra e desenhou um mapa do mundo habitado cortado por linhas norte-sul e leste-oeste, uma das primeiras grades de que se tem notícia.

Trocava cartas com Arquimedes de Siracusa. O maior matemático do tempo endereçou a ele o tratado O Método, sinal de que o via como interlocutor à altura, e não como segundo colocado.

Foi nesse ambiente de rolos cruzados, entre listas de reis, tabelas de estrelas e relatos de viajantes, que o bibliotecário leu a notícia do poço de Siena e percebeu que ela cabia numa conta de geometria.

 
 

II  O Momento que Virou

Uma vara, um poço e 5.000 estádios

O livro em que Eratóstenes explicou a medição, Sobre a medida da Terra, se perdeu. Quem resumiu o método foi o astrônomo Cleomedes, no tratado Sobre os movimentos circulares dos corpos celestes, escrito provavelmente no século 2 d.C.

Cleomedes lista as premissas. Siena e Alexandria estariam sobre o mesmo meridiano (a linha imaginária norte-sul). Os raios do Sol chegariam paralelos, porque o Sol está muito longe. E a Terra seria uma esfera, ideia aceita entre os gregos desde Aristóteles.

O instrumento era o gnômon (vara vertical que marca sombras), ou uma versão em tigela chamada scaphe, relógio de sol côncavo com um ponteiro no centro. Na tigela, o ângulo da sombra aparece como arco já riscado na pedra, pronto para ler.

A escolha do solstício tinha motivo prático. Só nesse dia o Sol de Siena ficava a pino, e a sombra de Alexandria atingia o menor ângulo do ano, o mais fácil de comparar. Outra data exigiria correções que a astronomia da época fazia mal.

Cleomedes descreve a leitura em Sobre os movimentos circulares, no século 2: "o arco da tigela em Alexandria se acha a quinquagésima parte do círculo máximo".

A geometria vinha de Euclides, que tinha ensinado em Alexandria uma geração antes. Quando uma reta corta duas paralelas, os ângulos alternos são iguais. O ângulo da sombra na vara é igual ao ângulo, no centro da Terra, entre as duas cidades.

A sacada não pedia instrumento novo. Pedia acreditar que uma sombra de palmos, medida num pátio, dizia algo sobre a curvatura do planeta inteiro.

A distância de 5.000 estádios, segundo a tradição, vinha dos bematistas, medidores profissionais que contavam passos em marchas pelo reino. Caravanas de camelo levavam cerca de cinquenta dias para cobrir o trajeto.

As premissas tinham folgas. Siena fica cerca de 3 graus a leste de Alexandria, fora do mesmo meridiano, e um pouco ao norte do trópico, onde o Sol a pino de fato acontece. Parte dos desvios se compensou na conta.

Mais tarde, Eratóstenes arredondou o total para 252.000 estádios, relata o geógrafo Estrabão na Geografia, escrita no começo do século 1 d.C. O ajuste deixava a volta divisível por 60 e dava 700 estádios por grau, número redondo para desenhar mapas.

Com essa grade, ele passou a localizar cidades por latitude, calcular distâncias entre portos e estimar a largura do mundo habitado, que os gregos imaginavam como uma ilha comprida cercada de oceano.

 

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III  O Que Ficou

O estádio que ninguém fixou

A conversão para quilômetros depende do estádio, e as fontes antigas não dizem qual Eratóstenes usou. Os estudiosos discutem o valor desde o século 19 e seguem sem acordo, porque nenhum texto da época traz a medida em pés.

Se foi o estádio ático, de cerca de 185 metros, a volta daria uns 46.600 km. Se foi o estádio de 157,5 metros proposto pelo metrólogo alemão Friedrich Hultsch em 1882, daria 39.690 km. Pelo sistema geodésico WGS 84, a volta real no equador mede 40.075 km.

Na hipótese pior, o erro fica perto de 16%; na melhor, abaixo de 2%. Qualquer das duas, para um homem com uma vara e um relato de caravana, era espantosa.

Hiparco de Niceia, o astrônomo que catalogou estrelas no século seguinte, atacou o mapa de Eratóstenes em vários pontos, mas aceitou a medida da volta e a usou nas próprias contas, conforme Estrabão.

O mérito maior está no método. Eratóstenes transformou uma pergunta de filósofo em conta de agrimensor, e qualquer pessoa com vara e trena podia refazê-la para conferir.

A conta seguiu viva, e encolheu. Posidônio de Rodes refez a medição um século depois usando a estrela Canopo e chegou a 180.000 estádios, segundo Estrabão. O astrônomo Cláudio Ptolomeu adotou o número menor no século 2 d.C., e a Terra encurtada passou aos mapas medievais.

Cristóvão Colombo usou valores dessa linhagem, somados a outros ajustes, para calcular uma Ásia perto da Europa pelo oeste. Em 1492, a aposta num planeta pequeno terminou numa praia das Bahamas, num continente que os mapas dele não traziam.

Eratóstenes seguiu na Biblioteca até a velhice. Segundo a Suda, perdeu a vista por volta de 194 a.C., aos 82 anos, e recusou comida nos dias seguintes, porque não conseguia mais ler. Faleceu em Alexandria.

O experimento dele ainda roda. Escolas de vários países repetem a medição no equinócio, com varas fincadas no pátio, e trocam as sombras entre si para refazer a conta do bibliotecário com dados próprios.

"Que sombra do seu dia você nunca pensou em medir?"

No epigrama em que ofereceu ao rei o mesolábio (um aparelho de réguas deslizantes para dobrar o volume de um cubo), preservado pelo comentador Eutócio, Eratóstenes deixou o conselho: "Não procures os difíceis trabalhos dos cilindros de Arquitas."

 
 
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Segundo o texto, a que fração de uma volta completa (360 graus) correspondia o ângulo de 7 graus e um quinto medido na sombra em Alexandria?

AUm cem avos
BUm cinquenta avos
CUm doze avos
DUm vinte avos

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