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100% escolheram Tsutomu Yamaguchi. Sai em 19/09.
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A sala de aula sem um livro que Dorina pudesse ler
Aos 17 anos, a estudante paulistana Dorina de Gouvêa perdeu a visão e descobriu que o Brasil quase não imprimia livros em braile.
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São Paulo, 1946: a página em relevo
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Aos 17 anos, a estudante paulistana Dorina de Gouvêa perdeu a visão ao longo de poucas semanas, em São Paulo, e voltou para a sala de aula sem um único livro que pudesse ler sozinha.
Os textos do curso existiam em tinta, impressos em papel comum, e nenhum deles estava disponível na forma que os dedos dela alcançavam. A solução da turma foi ler em voz alta para ela, capítulo por capítulo, nos intervalos e nas tardes livres.
O sistema que ela precisava se chama braile, a escrita em relevo em que cada letra vira uma combinação de até seis pontos furados no papel, lidos com a ponta dos dedos. Louis Braille, francês cego desde a infância, publicou o método em 1829, e o Brasil já o ensinava desde o século XIX no Imperial Instituto dos Meninos Cegos, no Rio de Janeiro.
Ensinar o código era uma tarefa; entregar livro impresso nele era outra, bem mais cara. Uma página em braile precisa de papel grosso, de máquina que marque o relevo sem rasgar a folha e de espaço: um romance comum vira quatro ou cinco volumes gordos, pesados, caros de produzir e caros de transportar.
O resultado prático daquela conta aparecia na biblioteca. Havia devocionário, havia partitura, havia alguns clássicos vindos da Europa por doação, e quase nada do que um estudante brasileiro de curso normal precisava ler para prestar exame no ano seguinte.
Dorina passou a decorar o que ouvia. Tomava nota em relevo com o material que conseguia, refazia o raciocínio de cabeça na hora da prova e chegava à banca sem nenhuma vantagem além da memória treinada.
A saída que ela construiu depois não foi arranjar um livro para si. Foi montar, com as colegas de turma, uma casa que imprimisse livros em braile e mandasse de graça para qualquer pessoa cega do país que pedisse.
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I A Vida de Hoje
A menina que aprendeu a ler duas vezes
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Dorina de Gouvêa nasceu em São Paulo em 28 de maio de 1919, em família de classe média, e cresceu numa casa em que ler em voz alta na sala depois do jantar era hábito da noite. Ela aprendeu a ler cedo, na tinta, como qualquer criança da vizinhança.
A visão começou a falhar quando ela tinha 17 anos. Em poucas semanas a perda se completou, e os registros públicos sobre o caso nunca fixaram um diagnóstico único: os relatos falam em doença nos olhos, sem exame que sobreviva para sustentar um nome preciso hoje.
O Brasil dos anos 1930 tratava cegueira como assunto de instituição fechada. A criança cega ia para um asilo-escola, aprendia ofício manual, ficava ali. Quem saísse daquele circuito não tinha caminho previsto dentro da escola comum, e a matrícula dependia da boa vontade de cada diretor.
Dorina decidiu aprender a ler de novo. Passou a estudar braile com material emprestado e treino diário nos dedos, e em pouco tempo lia em relevo com a fluência de quem lê com os olhos, o que é menos talento do que repetição de horas.
A dificuldade seguinte não estava nos dedos dela, estava no acervo. Saber ler braile num país que quase não imprime braile deixa a leitora com a técnica pronta e a estante vazia, e foi essa falta, não a cegueira, que organizou o resto da vida dela.
Ela prestou o curso da Escola Normal Caetano de Campos, a mais tradicional formadora de professoras de São Paulo, e enfrentou resistência na própria matrícula: havia dúvida declarada sobre uma aluna cega acompanhar aula de didática, de prática de ensino e de regência de classe.
A resposta veio no boletim. Dorina acompanhou o curso com o texto lido pelas colegas e anotado por ela em relevo, fez os mesmos exames que a turma inteira e se formou professora em 1945, a primeira aluna cega a concluir o curso naquela escola.
Formada, ela foi dar aula. Trabalhou com crianças cegas e viu de perto a cena que já conhecia por dentro: aluno com inteligência para acompanhar o programa e sem material para estudar em casa, dependendo de alguém disponível para ler em voz alta.
Dorina também percebeu quem ficava de fora da conta. Aluno do interior, sem escola especializada por perto e sem parente alfabetizado em braile, sumia do sistema depois dos primeiros anos, e ninguém no país levantava esse nome para procurar.
O diagnóstico dela era simples e caro de resolver: faltava indústria. Não adiantava formar mais professora de braile se o livro em braile continuasse sendo peça artesanal, furada folha a folha na reglete, a placa de metal em que cada ponto é marcado à mão com um punção.
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II O Momento que Virou
1946, a fundação que nasceu numa mesa de sala
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Em 1946 Dorina reuniu colegas da Escola Normal e montou em São Paulo a Fundação para o Livro do Cego no Brasil, com endereço improvisado, dinheiro levantado em doação e um objetivo escrito de forma direta: produzir livro em braile e entregar de graça a quem precisasse.
O começo foi manual. As primeiras obras saíram copiadas ponto a ponto por voluntárias treinadas por ela, num trabalho em que uma página leva minutos e um livro inteiro leva meses, com revisão feita por leitor cego passando o dedo linha por linha.
O gargalo era previsível. Produção artesanal atende dezenas de pedidos, e a caixa postal da fundação recebia carta de estudante de todo o país, escrita por parente vidente, pedindo compêndio de português, de aritmética, de história do Brasil.
Dorina entendeu que a saída passava por máquina e por escala industrial: prensa de braile, papel próprio, equipe fixa e um catálogo que permitisse mandar o mesmo título para cem estudantes sem refazer o trabalho cem vezes. A fundação passou a perseguir equipamento, não mais voluntária.
Ela foi buscar o método fora. Com bolsa de instituição americana dedicada à cegueira, Dorina estudou educação de pessoas cegas nos Estados Unidos, passou pela Universidade Columbia, em Nova York, e visitou imprensas e escolas que já produziam material em volume.
O que ela trouxe de lá tinha duas camadas. Uma técnica, de como se organiza uma imprensa em braile, do papel à encadernação. Outra pedagógica, e mais polêmica no Brasil da época: a defesa de que criança cega deve estudar na escola comum, na sala com as outras, com material adaptado, e não numa instituição separada.
De volta a São Paulo, ela entrou no circuito de decisão. Dorina participou da articulação que levou o governo federal a criar, em 1950, a Campanha Nacional de Educação de Cegos, ligada ao Ministério da Educação, que passou a formar professor e a distribuir material pelos estados.
No fim daquela década a vida pessoal também mudou de nome. Ela se casou com o inglês Edward Nowill, radicado no Brasil, e passou a assinar Dorina Nowill, a forma pela qual o país inteiro viria a conhecê-la depois.
A fundação, nesse período, instalou prensa e virou gráfica. O braile deixou de sair da reglete e passou a sair de chapa metálica prensada, com tiragem, catálogo e remessa pelos correios para escola, biblioteca e casa de estudante em estado distante.
A regra de distribuição nunca mudou desde o início: o livro chega sem custo para quem recebe. O financiamento vem de doação, de empresa e de convênio público, e quem está do outro lado da correspondência recebe o volume como recebe qualquer encomenda, sem provar carência a ninguém.
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