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ED 038
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A sala da Praça Onze onde o primeiro samba foi gravado

Em 1916, a doceira baiana Hilária Batista de Almeida recebia na própria sala rodas que a polícia do Rio tratava como caso de delegacia.

Cavaquinho e tabuleiro de doces sobre mesa de madeira, Praça Onze, 1916.

Praça Onze, 1916: o cavaquinho na sala dela

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Aos 62 anos, a doceira baiana Hilária Batista de Almeida encostou o tabuleiro de doces na parede da própria sala, na Rua Visconde de Itaúna, em plena Praça Onze, e abriu a porta para os tocadores que chegavam depois do expediente.

Conhecida no Rio de Janeiro inteiro como Tia Ciata, ela era ialorixá, mãe de santo do candomblé, e tirava o dinheiro do mês vendendo quitute no tabuleiro, a bandeja de doces que as baianas carregavam na cabeça pelo centro da cidade.

A casa acumulava três funções na mesma noite. Festa de família na frente, roda de violão e cavaquinho na sala do meio, terreiro de santo no fundo do quintal, cada ambiente com a sua porta e o seu horário.

O Código Penal de 1890 tratava como crime a capoeira, o curandeirismo, que era a cura praticada fora do diploma de medicina, e a vadiagem, que era a falta de ocupação comprovada. Reunião de gente negra com tambor caía em qualquer um dos três artigos.

A polícia da Primeira República passava na rua e anotava. Quem tocava em casa de tia baiana sabia que o instrumento podia terminar a noite dentro da delegacia do distrito, e que o dono do instrumento podia terminar junto com ele.

Foi no chão daquela sala que um punhado de músicos moldou, ao longo de rodas repetidas por meses, uma melodia com versos que já corriam de boca em boca no bairro, versos sobre um chefe de polícia e um telefone.

Em 1916, um dos frequentadores levou a partitura à Biblioteca Nacional e registrou "Pelo Telefone" no próprio nome, com letra assinada por um cronista de jornal. No carnaval seguinte o disco da Casa Edison tocava em todo o Rio.

Na etiqueta do disco, no registro da Biblioteca Nacional e na partitura vendida em loja de música, Hilária não constava em lugar nenhum.

A mulher que abriu aquela sala tinha nascido a mais de mil quilômetros dali, num município de engenho da Bahia, e chegou ao Rio de Janeiro antes dos vinte e cinco anos.

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I  A Vida de Hoje

A baiana de Santo Amaro que virou endereço no Rio

Hilária Batista de Almeida nasceu em 1854 em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, região de engenho de açúcar e de população negra majoritária, trinta e quatro anos antes da Lei Áurea.

Chegou ao Rio de Janeiro por volta de 1876, ainda sob a escravidão legal, na mesma corrente de baianos que descia para a capital em busca de serviço no porto, na casa de família e no comércio de rua.

A cidade que a recebeu tinha um pedaço batizado pelos próprios moradores de Pequena África. Eram os bairros da Saúde, da Gamboa, do Santo Cristo e a Cidade Nova, com a Praça Onze no meio, ocupados por estivadores, quituteiras, vendedores ambulantes e gente recém-chegada do Nordeste.

Ali ela virou quituteira de tabuleiro, vendendo cocada, mungunzá, acarajé e abará em festa de igreja e em esquina de movimento, e ganhou da vizinhança o apelido Tia Ciata, redução de Hilária.

O posto de tia não era brincadeira de bairro. Um punhado de mulheres baianas mais velhas, entre elas Tia Bebiana, Tia Perciliana, Tia Amélia, Tia Mônica e Tia Sadata, sustentava a rede de moradia, emprego, comida e religião de quem chegava sem nada na estação.

Ela era a única daquela roda de tias com três negócios rodando ao mesmo tempo: o tabuleiro que pagava a casa, o terreiro que atendia a vizinhança e a sala que recebia músico sem cobrar entrada.

Iniciou-se no candomblé com o babalorixá João Alabá, pai de santo de nação ketu que mantinha terreiro na Cidade Nova, e chegou a ialorixá, a mulher que dirige o terreiro e inicia filho de santo.

Casou com João Baptista da Silva, homem letrado que trabalhava como escrivão. O casal teve filhos, morou em mais de um endereço do bairro e acabou fixado na Rua Visconde de Itaúna, via que desembocava na Praça Onze.

O cronista Francisco Guimarães, o Vagalume, registrou no livro "Na Roda do Samba", de 1933, a história que corria sobre ela no Rio: chamada para tratar uma ferida na perna do presidente Wenceslau Brás que os médicos não fechavam, Ciata resolveu o problema com remédio de folha.

A recompensa, segundo a mesma versão, foi um cargo público para o marido. Não existe documento oficial que confirme a consulta, e o episódio chegou até hoje pela palavra de cronista e pela memória dos músicos, nunca por registro de Palácio.

Verdadeira ou aumentada, a história diz o tamanho que a casa tinha. A mesma mulher que podia ser presa por curandeirismo era procurada pela elite da cidade, e a sala dela já era, naquela altura, o lugar onde o samba do Rio se fazia.

 
 

II  O Momento que Virou

O samba que saiu da sala e entrou no disco

A casa da Rua Visconde de Itaúna funcionava por ordem de ambiente. A festa começava na sala da frente, com piano, polca e maxixe para visita de respeito, e ia ficando mais longe da rua conforme a noite avançava.

No quintal dos fundos, longe da janela, aconteciam o batuque de tambor e a obrigação de santo. No meio da casa ficava a roda de partido-alto, o samba de improviso em que um puxa o refrão e cada cantador responde com verso inventado na hora.

A geração que frequentou aquele meio de casa montou o samba urbano brasileiro. Passavam por ali Ernesto Joaquim Maria dos Santos, conhecido como Donga, João Machado Guedes, o João da Baiana, José Barbosa da Silva, o Sinhô, Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, e Heitor dos Prazeres.

A casa dava a eles quatro garantias que a rua do centro do Rio negava a músico negro em 1916:

Um endereço fixo para ensaiar de madrugada sem ser dispersado por patrulha - Comida e café servidos por quem cozinhava para fora e sabia alimentar trinta pessoas - Proteção social, porque a dona da casa tinha trânsito com autoridade e com delegado do distrito - Plateia exigente, formada por gente do ofício, que reprovava verso fraco na hora

Dessas rodas saiu um samba sobre uma notícia de polícia. Corria pela Cidade Nova que o chefe de polícia tinha sido avisado por telefone de uma roleta funcionando no largo da Carioca, e o fato virou refrão de improviso, cantado com variação conforme a noite.

"O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar."

Donga e Mauro de Almeida, "Pelo Telefone", 1916

Donga e Mauro de Almeida, "Pelo Telefone", 1916

Em novembro de 1916, Donga levou a partitura ao escritório de direito autoral da Biblioteca Nacional e registrou a obra no nome dele, com letra atribuída a Mauro de Almeida, cronista do jornal A Noite que assinava como Peru dos Pés Frios.

A Casa Edison gravou o samba em disco no mesmo período, com a Banda Odeon e o cantor Bahiano na voz, e lançou para o carnaval de 1917. O rótulo trazia a palavra samba impressa, em tempo em que a indústria ainda catalogava quase tudo como maxixe ou tango brasileiro.

A venda foi grande para a época e o refrão pegou no carnaval de rua. "Pelo Telefone" entrou na história como o primeiro samba gravado no Brasil, e o registro de 1916 é o documento que sustenta o título até hoje.

A briga começou junto com o sucesso. Sinhô, Heitor dos Prazeres e outros frequentadores reclamaram publicamente na imprensa carioca que a melodia e os versos tinham sido feitos por muita gente, nas rodas da casa, e que ninguém ali tinha autorizado registro individual.

Donga sustentou o registro pelo resto da vida e repetiu em depoimento que o samba era obra dele. A polêmica rendeu nota de jornal e troca de acusação por semanas, sem nunca chegar a tribunal.

Hilária não entrou na discussão e não aparece em nenhum dos documentos do caso. Ela não assinava partitura, não tocava instrumento em roda e não recebia por noite de música, e a lei de direito autoral de 1916 só reconhecia quem chegava ao balcão da Biblioteca Nacional com papel na mão.

 

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III  O Que Ficou

A rua que a avenida apagou

Hilária Batista de Almeida morreu em 27 de outubro de 1924, no Rio de Janeiro, aos setenta anos, oito anos depois do registro do samba que saiu da sala dela e sem nunca ter recebido um tostão de direito autoral.

O enterro reuniu músico, filho de santo e vizinhança da Cidade Nova, sem nota nos jornais grandes.

A Praça Onze sobreviveu a ela por menos de vinte anos. Entre 1941 e 1943, a prefeitura de Henrique Dodsworth abriu a Avenida Presidente Vargas em linha reta pelo centro, e a obra derrubou a praça, os cortiços em volta e boa parte das ruas do bairro, inclusive o trecho onde ficava a casa.

Os sambistas despediram-se com música. Herivelto Martins e Grande Otelo gravaram em 1942 a marcha "Praça Onze", que cantava a demolição enquanto as máquinas trabalhavam, e as escolas de samba nascidas naquele perímetro seguiram para outros bairros.

Da casa onde o samba brasileiro entrou em disco não sobrou parede, número, nem fotografia do interior: sobrou o endereço escrito em depoimento de músico e o disco de 1917 que qualquer pessoa ainda pode ouvir.

O que não se sabe continua sem resposta por falta de papel, e não por falta de procura. Nenhum documento diz quais versos de "Pelo Telefone" saíram de quem, porque roda de improviso não gerava partitura, e ninguém na sala estava anotando autoria enquanto cantava.

Também não se sabe o que Hilária pensava do registro. Ela não deixou carta, diário ou entrevista, e a fala dela chegou até hoje pela lembrança de terceiros, décadas depois.

O reconhecimento veio tarde e veio pelos outros. Em 1966 e 1967, o Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro gravou depoimentos de Donga, João da Baiana e Pixinguinha, e os três contaram a mesma origem para o samba carioca: a casa da Tia Ciata.

O nome dela entrou no calendário da cidade e na toponímia. Existe rua batizada com o nome de Tia Ciata no Rio, o Centro Cultural José Bonifácio trata o território da Pequena África como patrimônio, e a ala das baianas, presença obrigatória em desfile de escola de samba, é homenagem direta àquelas mulheres.

A conta do episódio ficou registrada em duas linhas diferentes. Hilária virou endereço na história do samba; o papel levado ao balcão em 1916 rendeu crédito, dinheiro e assinatura a quem o protocolou.

"Quem está na sua sala fazendo a obra que vai sair com outro nome na capa?"

Donga contava, no depoimento que deu ao Museu da Imagem e do Som em 1966: "O samba ali era feito na casa da Tia Ciata, na sala dela."

 
 

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Quem levou a partitura ao escritório de direito autoral da Biblioteca Nacional em novembro de 1916 e registrou a obra no próprio nome?

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