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A química de 23 anos que tornou o remédio injetável
Em Honolulu, 1915, ela resolveu em poucos meses um problema de solubilidade que travava o único tratamento conhecido para a hanseníase.
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O laboratório de Honolulu, 1915
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Em 1865 o reino do Havaí aprovou uma lei que autorizava o governo a separar da população qualquer pessoa com sinais de hanseníase. Quem era diagnosticado perdia casa, emprego e família, embarcava num navio e desembarcava em Kalaupapa, uma península da ilha de Molokai isolada do resto do mundo por um paredão de rocha de seiscentos metros.
Ao longo das décadas seguintes, milhares de pessoas fizeram essa travessia sem passagem de volta. A separação não era tratamento: era arquivamento de gente. Enquanto isso, o único remédio que a medicina ocidental levava a sério para a doença vinha de uma árvore do sudeste asiático, o chaulmoogra, cujas sementes davam um óleo espesso usado havia séculos na Índia e na Birmânia.
O óleo tinha efeito real e um defeito prático que anulava quase tudo. Engolido, revirava o estômago e a maioria dos pacientes vomitava antes de completar a dose. Passado na pele, ficava na superfície e não chegava ao lugar onde precisava agir. Injetado puro, era pior: viscoso demais, ele não se misturava aos líquidos do corpo e formava embaixo da pele bolhas duras e doloridas que apodreciam em abscesso.
Médico nenhum resolvia essa parte, porque a parte não era médica. Era química. Alguém precisava quebrar o óleo em componentes fluidos o bastante para atravessar uma agulha e serem absorvidos pelo sangue, sem destruir a molécula que fazia o efeito. Laboratórios da Europa e dos Estados Unidos tinham tentado e emperrado no mesmo ponto havia mais de trinta anos.
Em Honolulu, no fim de 1915, esse problema foi parar na bancada de uma mestranda de vinte e três anos do College of Hawaii. Ela tinha acabado de defender uma dissertação sobre a química de outra planta, dava aula de química no mesmo prédio e era a única mulher do departamento. Não trabalhava com hanseníase, não tinha equipe e não tinha verba.
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I A Vida de Hoje
Seattle, a fotografia do avô e a raiz de kava
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Aos 23 anos, com carga de aulas cheia, ela resolveu em meses o que travava havia trinta.
Ela nasceu em Seattle em 24 de julho de 1892, quarta filha de uma família negra de classe média que vivia de imagem: o pai era advogado e editor de jornal, a mãe fotógrafa, e o avô um dos primeiros fotógrafos negros dos Estados Unidos.
O nome dela era Alice Augusta Ball. O avô, James Presley Ball, tinha aberto galeria de daguerreótipo em Cincinnati nos anos 1840 e usava a câmera como argumento político, retratando famílias negras livres numa época em que a escravidão ainda era lei em boa parte do país.
A família se mudou para Honolulu em 1903, na esperança de que o clima quente ajudasse a saúde do avô. Ele faleceu no ano seguinte, e os Ball voltaram para Seattle, mas a menina guardou a memória da ilha e das plantas que não existiam no continente.
O laboratório entrou na vida dela pela fotografia. Revelar chapa de daguerreótipo era trabalho de química prática, com vapor de mercúrio, sais de prata e tempo de banho cronometrado, e ela cresceu vendo adulto medir reagente com precisão dentro de casa.
Na Universidade de Washington, ela não fez um curso: fez dois. Bacharelado em química farmacêutica em 1912, bacharelado em farmácia em 1914, e no meio do caminho a coautoria de um artigo de dez páginas no jornal da sociedade americana de química, publicação que quase nenhum estudante de graduação assinava.
A oferta seguinte veio do lugar da infância. O College of Hawaii, em Honolulu, ofereceu uma bolsa de mestrado, e ela escolheu a ilha em vez das universidades do continente que também a queriam.
O tema da dissertação foi o kava, a raiz que os havaianos maceravam para fazer uma bebida cerimonial de efeito calmante. A pergunta que ela atacou era de separação: quais compostos, dentro daquela raiz, produziam o efeito, e como isolar cada um deles em estado puro sem quebrar a molécula no processo.
O trabalho exigia exatamente a técnica que faltava a todo mundo que tinha tentado domar o óleo de chaulmoogra. Extração com solvente, hidrólise controlada, destilação fracionada a pressão reduzida para não cozinhar o composto, e depois a checagem de que o que saiu do balão era mesmo o que estava escrito no papel.
Em 1915 ela defendeu a dissertação e virou a primeira mulher e a primeira pessoa negra a receber um mestrado daquela instituição. No mesmo ano foi contratada como instrutora de química, a primeira mulher a dar aula na cadeira, aos vinte e três anos.
O ambiente não facilitava nada. Havia leis de segregação vigentes em vários estados americanos, universidades que não aceitavam alunas em laboratório e departamentos inteiros sem uma única mulher no quadro. Ela dava aula em dia útil e usava a bancada nas horas que sobravam.
Foi essa combinação que chamou a atenção de um médico do outro lado da cidade. Ele tinha lido o trabalho sobre o kava e concluiu que quem sabia separar princípio ativo de raiz sabia separar ácido graxo de óleo.
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II O Momento que Virou
O éster que passava na agulha
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Harry Hollmann, cirurgião assistente da estação de recepção de Kalihi, em Honolulu, procurou a instrutora de química com um pedido de bancada: transformar um óleo intratável em algo que coubesse numa seringa.
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Kalihi era a triagem. Todo suspeito de hanseníase no arquipélago passava por ali antes da decisão entre soltura e embarque para Molokai, e Hollmann via de perto o que o óleo de chaulmoogra fazia e deixava de fazer nos pacientes.
O óleo é composto principalmente de triglicerídeos, moléculas grandes em que três ácidos graxos ficam amarrados a uma espinha de glicerol. Os ácidos que interessavam, o chaulmoógrico e o hidnocárpico, tinham ação sobre a bactéria, mas presos naquela estrutura pesada eles não iam a lugar nenhum dentro do corpo.
A saída óbvia era quebrar o triglicerídeo e usar os ácidos livres. Só que ácido graxo livre injetado irrita o tecido e provoca a mesma reação inflamatória que se queria evitar, então a tentativa anterior tinha sido trocar um problema por outro.
A solução dela foi um passo adiante. Em vez de parar no ácido, ela levou a reação até o éster etílico: separava os ácidos graxos, ligava cada um a um álcool etílico e obtinha um líquido fino, neutro, estável e absorvível, que atravessava agulha fina e se dispersava no tecido sem formar depósito.
O procedimento cabia em quatro movimentos:
| Hidrólise do óleo quebrar os triglicerídeos e liberar os ácidos graxos da espinha de glicerol
- Esterificação etílica: converter cada ácido no éster correspondente, tirando o poder irritante sem tirar a atividade
- Destilação fracionada a pressão reduzida: separar as frações em temperatura baixa, para não degradar a molécula ativa
- Padronização da dose: obter um líquido de composição conhecida, repetível de lote em lote, o que nenhuma preparação artesanal do óleo entregava |
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"Depois de muito trabalho experimental, a senhorita Ball resolveu o problema para mim."
Harry T. Hollmann, Archives of Dermatology and Syphilology, 1922
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O tempo entre o pedido e o resultado foi de meses, não de anos. Ela fez a bancada inteira acumulando a carga de aulas do semestre, sem equipe de pesquisa, sem financiamento externo e sem nada parecido com um laboratório dedicado ao assunto.
O resultado clínico apareceu rápido. Os pacientes de Kalihi passaram a tolerar as aplicações, a série de injeções pôde ser levada até o fim, e as lesões e os exames de alguns deles começaram a apresentar melhora suficiente para discussão de alta, coisa que a preparação antiga nunca tinha permitido.
Naquele arquipélago, alta significava a única palavra que importava para quem entrava em Kalihi: não embarcar. Nos anos seguintes, dezenas de pessoas que estavam na fila da separação forçada voltaram para casa em vez de descer o paredão de Molokai.
O que estava na mesa não era um remédio novo. Era o mesmo óleo de sempre, o mesmo que a medicina indiana usava havia séculos, finalmente numa forma que o corpo humano aceitava receber.
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