|
Ela dava aula de dia e abria a própria escola à noite. Veja como uma filha de lavadeira chegou ao diploma.
Antonieta de Barros nasceu em Florianópolis em 11 de julho de 1901, filha de Catarina de Barros, lavadeira, e de Rodolfo de Barros, ambos filhos de pessoas escravizadas e libertos antes de 1888. A casa vivia do trabalho manual e da conta apertada de fim de mês.
O pai faleceu cedo, e a mãe passou a sustentar sozinha três filhos com o serviço de lavar roupa para famílias da cidade. A decisão que organizou o resto da história veio dessa mulher: os filhos estudariam, custasse o que custasse.
Antonieta entrou na Escola Normal Catarinense e se formou professora em 1921. Era o diploma de maior prestígio disponível a uma mulher em Santa Catarina, e ela chegava a ele sendo a primeira da família a completar o curso.
O diploma abria a sala de aula pública, mas não abria porta nenhuma além dela. O magistério primário era mal pago, e a professora recém formada dependia de aula particular para fechar o orçamento.
Em 1922 ela abriu o próprio curso, o Curso Particular Antonieta de Barros. Funcionava em horário que não competia com o trabalho: aula à noite, para gente que passava o dia na estiva, na cozinha alheia, na oficina ou no balcão.
O público era o que a escola oficial não alcançava. Adulto analfabeto, jovem que tinha largado a primeira série para ajudar em casa, empregada doméstica, operário, gente que só tinha as horas depois do expediente.
O curso preparava para o exame de admissão e para o concurso público, que era o caminho conhecido de melhora de vida na capital. Ensinar a ler ali não era ato simbólico, era liberar acesso a uma vaga com carteira e salário fixo.
A escola noturna sobreviveu por décadas e formou gerações de trabalhadores de Florianópolis, mantida com mensalidade baixa, aluno bolsista e o próprio salário da fundadora quando a conta não fechava.
No mesmo período ela entrou no jornalismo. Dirigiu o periódico A Semana, publicou em jornais da capital e passou a manter crônica regular, primeiro no Diário da Tarde e depois em A República.
A assinatura das crônicas era Maria da Ilha. O pseudônimo dava distância entre a autora e o texto numa cidade em que todo mundo se conhecia, e dava também o direito de escrever sobre política sem que a professora perdesse a aula do dia seguinte.
Sob esse nome ela tratou dos assuntos que não cabiam na sala. Escreveu sobre analfabetismo, sobre o salário do professor, sobre a situação da mulher que trabalhava fora e sobre o preconceito racial que a cidade praticava em silêncio de boa educação.
A crônica virou plataforma. Quando o nome de Antonieta de Barros começou a circular fora do círculo escolar, já havia um público que a lia toda semana sem saber que a autora era a professora da escola noturna da esquina.
|