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A lista de exigências de Frances Perkins

Ela viu da calçada o incêndio da fábrica Triangle, em 1911, e 22 anos depois cobrou de Roosevelt as leis que faltaram às costureiras.

Fachada do edifício Asch, em Nova York, depois do incêndio da fábrica Triangle em março de 1911

Nova York, 1911: o edifício Asch após o fogo

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Aos 30 anos, a assistente social Frances Perkins tomava chá na casa de uma amiga, na Washington Square, em Nova York, quando ouviu as sirenes dos bombeiros numa tarde de sábado, 25 de março de 1911.

Ela desceu à praça e correu até a esquina da Greene Street com a Washington Place. O fogo saía dos três andares mais altos do edifício Asch, um prédio de dez andares onde funcionava a fábrica de blusas Triangle Waist Company.

Lá dentro trabalhavam centenas de costureiras, quase todas imigrantes judias e italianas, muitas com menos de 20 anos. Costuravam a blusa de colarinho e cintura justa, moda das moças da cidade naquele começo de século.

Perkins chegou a tempo de ver moças pulando das janelas do nono andar. As escadas dos bombeiros só alcançavam o sexto. As redes de lona rasgavam com o peso de quem caía.

Uma das portas do nono andar estava trancada. Os donos, Max Blanck e Isaac Harris, mantinham a passagem fechada para evitar furto de retalho e pausa fora de hora. A escada de incêndio externa, de ferro fino, desabou com as moças em cima.

Em menos de 20 minutos, 146 pessoas morreram, 123 delas mulheres. Durante 90 anos, foi o pior desastre de local de trabalho da história da cidade, superado só pelos atentados de 2001.

Perkins ficou na calçada até a polícia isolar o quarteirão. Mais tarde, contou que saiu dali sabendo que lei bonita no papel não bastava: faltavam fiscal, multa e gente dentro do governo para cobrar.

Vinte e dois anos depois, um presidente recém-eleito a chamou para chefiar o ministério do Trabalho. Ela foi ao encontro com uma lista escrita de próprio punho e só aceitou o cargo depois de ouvir um sim para cada item.

Para entender de onde veio aquela lista, é preciso voltar a uma menina de Boston que estudou química e trocou o laboratório pelas fábricas.

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I  A Vida de Hoje

A química das fábricas

Frances Perkins nasceu Fannie Coralie Perkins em 10 de abril de 1880, em Boston, e cresceu em Worcester, Massachusetts, onde o pai tocava uma papelaria. A família vinha do Maine, era protestante e votava nos republicanos.

Em 1898 entrou no Mount Holyoke College, faculdade só de mulheres, e se formou em 1902 em química e física. Num curso de história econômica, a turma visitou as fábricas de papel e tecido da cidade vizinha de Holyoke e anotou jornada, salário e acidente.

Depois da formatura, deu aula de ciências em escolas para moças. Em Chicago, nas horas livres, trabalhou na Hull House, casa de assistência fundada por Jane Addams para atender famílias imigrantes nos bairros pobres.

Foi nessa fase que trocou Fannie por Frances, nome que achava mais sério para quem queria falar com deputados.

Em 1907, em Filadélfia, investigou agências de emprego que aliciavam moças recém-chegadas do campo e da Europa para casas de prostituição. Em 1910 concluiu o mestrado em ciência política na Universidade Columbia, em Nova York.

No mesmo ano assumiu a secretaria executiva da Liga dos Consumidores (Consumers' League, entidade que pressionava lojas e fábricas por condições decentes) na cidade. Pesquisou padarias de porão e fez campanha por um teto de 54 horas semanais para mulheres.

Depois do incêndio, Perkins virou investigadora de uma comissão estadual criada para entrar nas fábricas sem aviso.

A Comissão de Investigação de Fábricas funcionou de 1911 a 1915, presidida por dois deputados estaduais, Robert Wagner e Al Smith. Perkins levava os dois de madrugada a fábricas de conserva, para que vissem crianças descascando ervilha às 4 da manhã.

Da comissão saíram dezenas de leis estaduais: porta destrancada e abrindo para fora, chuveiro automático contra fogo, simulado de incêndio, limite de horas para mulheres e menores. Nova York virou modelo para outros estados.

Os donos da Triangle foram a julgamento em dezembro de 1911 e saíram absolvidos. Em 1914, num processo civil, pagaram 75 dólares por vítima, segundo o acordo registrado no tribunal.

Em 1913, Perkins casou com o economista Paul Caldwell Wilson e manteve o próprio sobrenome, gesto raro na época. A filha, Susanna, nasceu em 1916.

A partir de 1918, Paul teve crises de doença mental e passou longos períodos internado. Perkins sustentou a casa sozinha e guardou o assunto longe dos jornais por décadas.

Em 1919, Al Smith, eleito governador, nomeou-a para a Comissão Industrial do estado, com salário de 8 mil dólares por ano. Em 1929, o sucessor dele no governo, Franklin Delano Roosevelt, fez dela comissária industrial, chefe de todo o serviço estadual de fiscalização do trabalho.

 
 

II  O Momento que Virou

A lista no papel

Em fevereiro de 1933, Roosevelt já tinha vencido a eleição presidencial e montava o gabinete. Chamou Perkins à casa dele, na rua 65, em Nova York, e ofereceu o ministério do Trabalho.

Ela não respondeu sim. Tirou da bolsa uma lista e explicou que só aceitaria se o presidente apoiasse cada item.

A lista pedia ajuda federal direta aos estados para socorrer desempregados, um programa de obras públicas e seguro-desemprego. Pedia também aposentadoria paga pelo governo aos idosos, salário mínimo nacional, jornada máxima de trabalho e a proibição do trabalho infantil.

Perkins avisou que boa parte daquilo esbarraria na Suprema Corte e no Congresso. Roosevelt ouviu, concordou com a lista inteira e prometeu respaldo.

Em 4 de março de 1933, ela tomou posse. Foi a primeira mulher a ocupar uma pasta no gabinete presidencial americano, num país onde as mulheres votavam havia só 13 anos.

Anos depois, nas entrevistas de história oral gravadas pela Universidade Columbia nos anos 1950, explicou por que tinha aceitado: “A porta talvez não se abrisse de novo para uma mulher por muito, muito tempo, e eu tinha uma espécie de dever com as outras mulheres de entrar e sentar na cadeira oferecida.”

A recepção foi fria. Líderes sindicais queriam um dos seus no cargo, e a federação dos sindicatos reclamou em público da escolha. Jornalistas zombavam do chapéu tricórnio preto que ela usava em toda reunião.

Perkins respondeu com trabalho. Nos primeiros cem dias, ajudou a montar o Corpo Civil de Conservação, programa que pôs jovens desempregados para plantar árvores e abrir trilhas em parques nacionais.

Em 1934, Roosevelt entregou a ela a comissão encarregada de escrever a aposentadoria pública.

O Comitê de Segurança Econômica reunia ministros e técnicos. Quando as discussões emperraram, Perkins levou o grupo para a sala da casa dela, em Washington e avisou que ninguém sairia antes de um texto pronto.

O projeto previa aposentadoria para idosos, seguro-desemprego administrado pelos estados e ajuda a mães sozinhas e crianças. A conta seria paga por contribuição de patrões e empregados, para que nenhum Congresso futuro pudesse cortar o benefício com facilidade.

Em 14 de agosto de 1935, Roosevelt assinou a Lei da Seguridade Social (Social Security Act) na Casa Branca. Na foto oficial, Perkins aparece de pé, logo atrás da cadeira do presidente, de chapéu.

Dois itens da lista estavam cumpridos. Faltavam salário mínimo, jornada máxima e a proibição do trabalho infantil.

 

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III  O Que Ficou

Doze anos no ministério

A peça que faltava veio em 25 de junho de 1938. Roosevelt assinou a Lei de Padrões Justos de Trabalho (Fair Labor Standards Act), escrita no ministério de Perkins.

A lei fixou o salário mínimo federal em 25 centavos de dólar por hora e a semana de 44 horas, com redução para 40 até 1940. Proibiu o trabalho de menores de 16 anos na maioria das fábricas e de menores de 18 nas funções perigosas.

Com ela, a lista de 1933 ficou completa. Nenhum outro ministro do gabinete de Roosevelt entregou tanto do que prometeu na primeira conversa.

O preço veio no ano seguinte. Em 1939, o deputado republicano J. Parnell Thomas pediu o impeachment de Perkins, acusando-a de proteger Harry Bridges, líder sindical australiano dos estivadores da Califórnia, de um processo de deportação.

Ela depôs na Câmara e defendeu o direito de Bridges a um processo justo. A Comissão de Justiça da Câmara rejeitou a acusação, mas a campanha contra ela durou meses nos jornais.

Perkins ficou no cargo até 1945. Roosevelt morreu em abril daquele ano, e ela entregou a pasta ao novo presidente, Harry Truman, depois de doze anos, o mandato mais longo da história do ministério.

Truman a nomeou para a Comissão do Serviço Civil, onde ficou até 1953. Em 1946 publicou O Roosevelt que Eu Conheci (The Roosevelt I Knew), memória dos anos de governo.

Em 1957, aos 77 anos, foi dar aula na Escola de Relações Industriais e Trabalhistas da Universidade Cornell, em Ithaca. Morou numa residência de estudantes, a Telluride House, e jantava com os alunos.

Frances Perkins morreu em 14 de maio de 1965, em Nova York, aos 85 anos. Foi enterrada em Newcastle, no Maine, perto da casa de verão da família.

Em 1980, a sede do ministério do Trabalho em Washington recebeu o nome dela: Frances Perkins Building. A lei de 1935 segue em vigor e paga a aposentadoria de milhões de americanos todo mês.

O edifício Asch continua de pé, na mesma esquina, hoje como prédio da NYU, a universidade nova-iorquina. Uma placa lembra as 146 vítimas, e desde 2023 um memorial com os nomes delas cerca a fachada.

Em 1964, numa palestra na Universidade Cornell, Perkins contou onde tinha começado o New Deal (Novo Acordo, o pacote de leis de Roosevelt). Perkins disse: “O New Deal começou em 25 de março de 1911, o dia do incêndio da Triangle.”

 
 
 

Quiz da edição

No incêndio da fábrica Triangle, em 25 de março de 1911, quantas pessoas morreram em menos de 20 minutos?

A123
B90
C146
D54

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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