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A imperatriz que mandou o barco esperar
Em janeiro de 532, com Constantinopla em chamas, a ex-atriz Teodora falou contra a fuga de Justiniano e segurou o trono.
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Constantinopla, janeiro de 532: o conselho
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Aos cerca de 32 anos, a imperatriz Teodora, que na juventude ganhava a vida como atriz nos palcos de Constantinopla, pediu a palavra no conselho do palácio numa manhã de janeiro de 532. Na sala estavam o marido, o imperador Justiniano, generais e ministros. Ninguém ali esperava ouvi-la.
Lá fora, a cidade queimava havia cinco dias. A multidão tinha incendiado a grande igreja de Santa Sofia, o Senado e a Chalke, o portão de bronze do palácio. O grito que corria pelas ruas era "Nika", palavra grega que quer dizer "vence!", a mesma que a torcida gritava para os cocheiros nas corridas.
Na véspera, os revoltosos tinham aclamado outro imperador, Hipácio, sobrinho de um soberano antigo, dentro do Hipódromo, a pista de corridas de cavalos colada ao palácio. Milhares de pessoas enchiam as arquibancadas para saudá-lo.
Dentro do palácio, o plano mais sensato parecia a fuga. Os navios estavam no porto particular da residência imperial, carregados de ouro, prontos para levar a família pelo Bósforo. Justiniano ouvia os conselheiros e se inclinava a partir.
A guarda do palácio era pequena e pouco confiável. Boa parte dos soldados da capital esperava para ver quem venceria antes de escolher bandeira, e os generais contavam nos dedos os homens que obedeceriam a uma ordem de ataque.
Teodora não tinha cargo no conselho. Tinha outra história: filha de um tratador de ursos, crescida entre a arena e os bastidores, casada com o herdeiro do trono graças a uma lei escrita sob medida para ela.
O que ela disse naquela sala chegou aos nossos dias pela pena de Procópio de Cesareia, secretário do general Belisário, que estava no palácio durante a revolta. Ele anotou o discurso como quem anota uma virada de batalha.
Para entender por que uma ex-atriz tinha força para contrariar o imperador diante dos generais, é preciso voltar à pista de corridas onde o pai dela trabalhava, trinta anos antes.
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I A Vida de Hoje
A menina da arena dos ursos
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Teodora, imperatriz de Bizâncio ao lado de Justiniano I, nasceu por volta de 497, provavelmente em Constantinopla. Algumas fontes apontam Chipre ou a Síria, e o ano exato não ficou registrado.
O pai, Acácio, cuidava dos ursos da facção dos Verdes no Hipódromo. As facções, Azuis e Verdes, eram torcidas organizadas das corridas de biga (carro de duas rodas puxado por cavalos) e também partidos de rua, com chefes, verbas e brigas.
Acácio morreu quando Teodora tinha uns cinco anos e deixou a mulher com três filhas: Comito, Teodora e Anastácia. A mãe casou de novo e esperava que o novo marido herdasse o posto de tratador. O chefe dos Verdes vendeu o cargo a outro homem.
A mãe levou então as três meninas ao Hipódromo em dia de espetáculo, com guirlandas na cabeça, em súplica diante da multidão. Os Verdes riram. Os Azuis, que tinham acabado de perder o próprio tratador, deram o posto à família. Teodora torceu pelos Azuis pela vida inteira.
A menina que a torcida verde humilhou na arena seria, trinta anos depois, a mulher que decidiria o destino das duas torcidas numa manhã de inverno.
Adolescente, seguiu a irmã Comito para o palco. Fez mímica e comédia burlesca, gênero em que a atriz era tratada como mulher pública. A lei romana proibia senador de casar com atriz, e a igreja negava a elas os sacramentos enquanto seguissem no ofício.
Por volta dos 16 anos, partiu com Hecébolo, nomeado governador da Pentápole, na costa da atual Líbia. Ele a abandonou meses depois. Sozinha e sem dinheiro, ela fez a viagem de volta por terra e por mar, passando por Alexandria, no Egito.
Em Alexandria conheceu os líderes dos miafisitas, cristãos que viam em Cristo uma só natureza e rejeitavam o Concílio de Calcedônia (a reunião de bispos de 451 que definiu duas naturezas). Entre eles estavam o patriarca Timóteo III e o bispo exilado Severo de Antioquia. Ela protegeria esse grupo pelo resto da vida.
Por volta de 522, já em Constantinopla, conheceu Justiniano, sobrinho e herdeiro do imperador Justino I, uns quinze anos mais velho que ela. Ele quis casar. A imperatriz Eufêmia, mulher de Justino, se opôs enquanto viveu, e morreu por volta de 524.
Pouco depois, Justino assinou uma lei que permitia à atriz que largasse o palco casar com homem de alta patente. O casamento saiu em 525. Em 4 de abril de 527, Justiniano e Teodora foram coroados juntos; em agosto Justino morreu, e o casal ficou sozinho no trono.
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II O Momento que Virou
Cinco dias de fogo e um conselho
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A revolta começou nas corridas de 13 de janeiro de 532. Dias antes, o prefeito da cidade, Eudemão, mandara enforcar sete arruaceiros das duas facções. A corda arrebentou com dois deles, um Azul e um Verde, que fugiram para a igreja de São Lourenço e ficaram ali, protegidos pelo direito de asilo.
No Hipódromo, as torcidas pediram clemência ao imperador corrida após corrida. Justiniano não respondeu. Na vigésima segunda, Azuis e Verdes juntaram as vozes no mesmo grito, "Nika", e saíram para as ruas. Era a primeira vez que as duas torcidas marchavam do mesmo lado.
Queimaram a basílica de Santa Sofia erguida em 415 por Teodósio II, o Senado, as termas de Zeuxipo e parte do palácio. A multidão exigiu a demissão de três homens: João da Capadócia, prefeito do pretório (o chefe da cobrança de impostos), o jurista Triboniano e o próprio Eudemão.
Justiniano cedeu nos três casos. A revolta continuou. Em 18 de janeiro, ele apareceu no camarote do Hipódromo com os Evangelhos nas mãos, jurou anistia e pediu paz. Foi vaiado. No mesmo dia, a multidão levou Hipácio ao Fórum de Constantino e o coroou com um colar de ouro, na falta de coroa.
No conselho, a fuga estava praticamente decidida quando Teodora falou. Procópio registrou o discurso no livro I da História das Guerras, escrito por volta de 550: "Se agora queres salvar-te, ó imperador, não há dificuldade. Temos muito dinheiro, e ali está o mar, e ali os barcos."
Ela seguiu: quem já vestiu a púrpura, a cor reservada ao imperador, não deveria viver para ser chamado de ex-imperador. Fugir seria trocar o trono por uma vida escondida, contando moedas longe de casa. E terminou com um ditado antigo, que Procópio anotou palavra por palavra.
Teodora lembrou aos generais que o ouro e os barcos garantiam a vida e nada além dela. A sala abandonou o plano de fuga.
Belisário, general recém-chegado da guerra contra a Pérsia, e Mundo, comandante de tropas hérulas (um povo germânico a serviço do império), entraram no Hipódromo por dois portões. O eunuco Narses, camareiro do palácio, levou ouro aos chefes Azuis e lembrou que Hipácio era homem dos Verdes. Parte dos Azuis deixou a arena.
Procópio conta cerca de 30 mil mortos naquela tarde, a maioria presa entre as arquibancadas e as saídas bloqueadas. Hipácio e o irmão Pompeu foram presos e executados no dia seguinte, e os corpos, lançados ao mar.
Justiniano confiscou os bens da família. Anos depois devolveu parte deles aos filhos dos dois irmãos, e a revolta de Nika nunca mais teve sequência.
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