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A freira que respondeu ao bispo em trinta páginas
Aos 42 anos, Juana Inés de la Cruz defendeu da cela de San Jerónimo o próprio direito de estudar, e três anos depois entregou a biblioteca.
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Cidade do México, 1691: a cela e os livros
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Aos 42 anos, a freira Juana Inés de la Cruz sentou-se na cela do convento de San Jerónimo, na Cidade do México, e datou de 1º de março de 1691 uma carta de dezenas de páginas endereçada ao bispo de Puebla, que a tinha aconselhado por escrito a deixar as letras humanas e se dedicar só às sagradas.
O conselho tinha vindo impresso, o que agravava tudo. Meses antes, em novembro de 1690, o bispo Manuel Fernández de Santa Cruz publicara sem pedir licença um texto que ela escrevera em particular, uma crítica minuciosa a um sermão do jesuíta português Antônio Vieira, e antepôs ao texto um prefácio assinado com nome falso de freira.
A carta que ela escreveu de volta não pediu desculpa nenhuma. Contou a própria vida de leitora desde os três anos, listou mulheres que estudaram antes dela, discutiu o versículo de São Paulo que as autoridades da época usavam para calar mulheres, e sustentou que estudar era condição para entender as Escrituras, não desvio delas.
Ela vivia numa cela grande, com biblioteca própria, instrumentos de música e de medir, criada a seu serviço e visitas da corte do vice-rei. A vida religiosa da Nova Espanha admitia esse arranjo para freiras de convento rico, e foi dentro dele que ela virou a poeta mais lida em língua espanhola dos dois lados do Atlântico.
Em fevereiro de 1694, três anos depois da carta, ela assinou a renovação dos votos no livro do convento com uma fórmula que ninguém lhe pediu, e a cela ficou sem os livros, sem os instrumentos e sem os papéis. Nenhum documento escrito por ela explica por que fez o que fez.
O caminho até aquela cela começou numa fazenda ao pé de dois vulcões, com uma menina que pediu à mãe para se vestir de rapaz.
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I A Vida de Hoje
A menina de Nepantla que pediu roupa de rapaz
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Juana Inés de Asbaje y Ramírez de Santillana nasceu em San Miguel Nepantla, povoado da Nova Espanha ao pé dos vulcões Popocatépetl e Iztaccíhuatl, filha da criolla Isabel Ramírez e do capitão basco Pedro Manuel de Asbaje, que não se casaram. O ano de nascimento é disputado: o assento de batismo achado em Chimalhuacán aponta 1648, e o jesuíta Diego Calleja, que escreveu a primeira biografia dela em 1700, dá 1651.
A leitura entrou cedo e por conta própria. Ela contou que, com três anos, acompanhou a irmã mais velha até a escuela de amigas, a escola de primeiras letras que as mulheres do povoado mantinham em casa, e convenceu a mestra a lhe dar lição dizendo que a mãe tinha mandado.
Na casa do avô materno havia livros, e foi ali que ela aprendeu latim e gramática sem professor. Contou que se cortava o cabelo como castigo quando não aprendia no prazo que se dava, porque não achava justo que a cabeça andasse vestida de cabelo enquanto estava vazia de notícia nova.
Aos poucos a biblioteca ficou pequena para o que ela queria. A Real y Pontificia Universidad de México funcionava desde 1553 na capital e não admitia mulheres em nenhum grau, e a menina pediu à mãe para cortar o cabelo, vestir roupa de homem e se matricular. O pedido foi negado.
Por volta dos dezesseis anos ela foi para a corte do vice-rei, como dama de companhia de Leonor Carreto, marquesa de Mancera. A vice-rainha gostou da moça culta, e ali Juana Inés escreveu versos de ocasião, aprendeu o funcionamento da máquina política do vice-reinado e virou figura conhecida do palácio.
Calleja registrou em 1700 o episódio que virou lenda: o vice-rei Antonio Sebastián de Toledo teria reunido umas quarenta autoridades de teologia, filosofia e matemática da capital para interrogá-la em público, e ela respondeu a todos. A cena aparece só nessa biografia, e nenhum documento da época a confirma.
A vida de corte tinha prazo. Uma moça sem dote e sem pai reconhecido tinha dois destinos aceitos, e ela escolheu o que deixava espaço para estudar. Entrou nas carmelitas descalças em 1667, saiu meses depois por causa do rigor da regra e da saúde, e em fevereiro de 1669 professou na Ordem de São Jerônimo, no convento de San Jerónimo, onde a regra era mais larga.
O convento virou oficina de trabalho. Ela administrou as contas da casa, comprou livros, escreveu villancicos (canções religiosas cantadas nas festas das catedrais) sob encomenda do México, de Puebla e de Oaxaca, e assinou comédias como Los empeños de una casa, representada em 1683 na capital.
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II O Momento que Virou
A crítica que virou livro sem ela saber
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Numa conversa de locutório, o espaço do convento onde as freiras recebiam visita através de grade, Juana Inés desmontou um sermão célebre. O jesuíta Antônio Vieira tinha pregado em Lisboa, em 1650, o Sermão do Mandato, onde sustentava que a maior fineza de Cristo no amor aos homens foi não querer nada em troca, e ela discordou ponto a ponto, com citações dos padres da Igreja.
Alguém pediu o argumento por escrito e ela escreveu. O texto saiu da cela como carta particular e chegou às mãos do bispo de Puebla, Manuel Fernández de Santa Cruz, que decidiu imprimi-lo em novembro de 1690 com o título Carta Atenagórica (carta digna de Atena, a deusa grega da sabedoria).
O bispo pôs na frente do texto dela um prefácio próprio, assinado como Sor Filotea de la Cruz, nome de freira inventado. Elogiava o engenho da autora e emendava que talento daquele tamanho deveria se ocupar das letras sagradas, e não das humanas, porque saber profano em mulher devota era desperdício e risco.
A jogada tinha destinatário duplo: publicar uma freira derrubando um jesuíta servia à disputa do bispo com a Companhia de Jesus, e o conselho impresso a colocava em posição indefensável, porque responder seria desobediência e calar valeria como confissão.
Havia ainda o arcebispo do México, Francisco de Aguiar y Seijas, que não recebia mulheres em audiência e considerava o teatro e a poesia profana caminhos de perdição. Ele controlava a vida religiosa da capital, e a posição dele sobre uma freira poeta era conhecida na cidade inteira.
Ela respondeu em 1º de março de 1691, no texto que ficou conhecido como Respuesta a Sor Filotea de la Cruz. Começou pedindo perdão pela demora e pelo atrevimento, e daí em diante não recuou mais uma linha.
O argumento central é de método: sem gramática, retórica, lógica, história, música e aritmética, ninguém entende a Bíblia, porque cada passagem depende de uma dessas ferramentas para não ser lida errado. Ela mostra onde a falta de cada saber produz erro de leitura e conclui que o estudo profano é degrau da teologia.
A inclinação para aprender, escreveu ela, veio antes de qualquer decisão e não cedeu a castigo nem a proibição: quando a superiora de um período a proibiu de ler, ela continuou observando e concluindo sobre o que tinha na frente, e disse que via mais filosofia nas panelas da cozinha do que muitos supunham, porque Aristóteles teria escrito mais se tivesse cozinhado.
Contra o versículo de São Paulo que mandava as mulheres se calarem nas igrejas, ela sustentou que a proibição valia para o púlpito e para o ensino público, não para o estudo particular nem para a escrita.
Depois listou as antecessoras: a rainha de Sabá, que foi interrogar Salomão; Hipátia de Alexandria, mestra de astronomia e geometria; e Santa Paula, que aprendeu hebraico para acompanhar São Jerônimo, o mesmo santo que dava nome ao convento dela. O endereço onde escrevia era a prova de que a Igreja já tinha aceitado o argumento antes.
A Respuesta não saiu impressa enquanto ela viveu. Circulou em cópia manuscrita e só foi publicada em 1700, em Madri, no volume Fama y obras póstumas del Fénix de México, organizado depois que o caso já tinha se fechado do modo que ninguém previa.
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