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A física que congelou cobalto para provar que a natureza tem lado
Em Washington, Chien-Shiung Wu resfriou cobalto-60 a milésimos de grau acima do zero absoluto e derrubou uma lei que a física dava como certa.
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Bureau Nacional de Padrões, Washington, 1956
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Aos 44 anos, a física Chien-Shiung Wu devolveu a passagem de navio que a levaria de volta à China depois de vinte anos fora, mandou o marido embarcar sozinho e passou o inverno de 1956 num porão do Bureau Nacional de Padrões, em Washington, montando um aparelho que ninguém garantia que fosse funcionar.
O que ela queria testar era uma lei que a física tratava como assunto encerrado: a conservação da paridade, a ideia de que qualquer processo da natureza teria um gêmeo espelhado igualmente possível. Se o universo não soubesse distinguir esquerda de direita, uma experiência e sua imagem no espelho dariam exatamente o mesmo resultado.
A dúvida tinha nascido de um problema prático. Duas partículas batizadas de tau e teta apareciam nos aceleradores com massa e tempo de vida indistinguíveis, mas decaindo de maneiras que a paridade proibia de vir da mesma origem. Em junho de 1956, Tsung-Dao Lee e Chen Ning Yang publicaram na Physical Review um levantamento incomodo: a paridade estava bem verificada na força eletromagnética e na força nuclear forte, e nunca tinha sido medida na interação fraca, a que governa o decaimento radioativo.
Wu era a pessoa do mundo com mais horas de bancada em decaimento beta, e enxergou o tamanho da tarefa em poucos minutos. Para ver se os elétrons saem preferencialmente num sentido, os núcleos que os emitem precisam estar todos apontados para o mesmo lado, e a agitação térmica de qualquer amostra em temperatura normal embaralha essa orientação em frações de segundo.
Alinhar núcleos de cobalto-60 exigia chegar a alguns milésimos de grau acima do zero absoluto, manter o detector dentro do criostato sem aquecer a amostra e contar elétrons por horas seguidas enquanto o campo magnético invertia de sentido. Nenhum laboratório universitário dos Estados Unidos tinha essa combinação de frio e de contagem.
A história dessa mulher começa numa vila às margens do Yangtzé, numa escola de meninas fundada pelo pai dela quando quase nenhuma menina chinesa aprendia a ler.
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I A Vida de Hoje
A menina de Liuhe e a escola que o pai fundou
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Ela nasceu em 31 de maio de 1912 em Liuhe, vila de canais perto de Xangai, filha de Wu Zhongyi, engenheiro que tinha lutado na revolta que derrubou a dinastia Qing, e de Fan Fuhua. No ano seguinte ao nascimento da filha, o pai abriu a Escola Mingde, uma das primeiras da região a aceitar meninas.
O nome que o pai deu a ela dizia o projeto em voz alta: Chien-Shiung, algo como corajosa e heroica, escolhido de uma série que ele reservou para os filhos e aplicou também à menina, contra o costume da época.
Ela foi aluna da própria escola até os nove anos e saiu de casa aos onze para a Escola Normal de Meninas de Suzhou, a oitenta quilômetros. Entrou entre as primeiras colocadas de milhares de candidatas, num curso que formava professoras e não oferecia física no programa.
Wu resolveu o buraco por conta própria. Pegava emprestado os livros de matemática, física e química das colegas do curso científico, copiava os capítulos à noite e estudava sozinha depois do toque de recolher, enquanto participava das manifestações estudantis que sacudiam a China dos anos 1920.
Em 1930 entrou na Universidade Central Nacional, em Nanquim, e em 1934 se formou em física no topo da turma. Foi trabalhar num laboratório de raios X da Academia Sinica, em Xangai, sob orientação de Gu Jingwei, doutora formada em Michigan, que insistiu para que a aluna fosse buscar doutorado nos Estados Unidos.
Embarcou em 1936 com destino a Michigan e mudou de plano ao desembarcar em São Francisco. Descobriu que a universidade para a qual ia proibia estudantes mulheres de usar a entrada principal do grêmio, visitou o laboratório de radiação de Berkeley guiada por um estudante chamado Luke Chia-Liu Yuan e ficou.
Doutorou-se em 1940 sob Ernest Lawrence, com uma tese em duas partes: a radiação eletromagnética produzida por elétrons de decaimento beta e a identificação dos gases nobres gerados na fissão do urânio, entre eles o xenônio-135. Casou-se com Yuan em 1942, na casa do orientador dele, na Califórnia.
Nenhuma universidade de pesquisa a contratou. Wu deu aula na Smith College, passou por Princeton como primeira instrutora mulher do departamento de física e só em 1944 chegou à Universidade Columbia, contratada pela Divisão de Pesquisa de Guerra para trabalhar no enriquecimento de urânio por difusão gasosa.
Depois da guerra ela ficou em Columbia e virou a maior autoridade viva em decaimento beta. Em 1949 refez do zero as medidas do espectro de elétrons emitidos pelo cobre-64, com fontes finas como um sopro que ninguém conseguia preparar, e mostrou que os desvios atribuídos à teoria de Fermi vinham da espessura das amostras usadas por outros grupos.
Foi essa fama de mão precisa em experimento sujo que fez dois teóricos subirem até a sala dela, no sétimo andar do prédio de física de Columbia, na primavera de 1956.
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II O Momento que Virou
Os elétrons que saíram todos para um lado
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Em 27 de dezembro de 1956, com o cobalto-60 resfriado a cerca de três milésimos de grau acima do zero absoluto e os núcleos alinhados por um campo magnético, o contador de Wu registrou elétrons saindo preferencialmente no sentido contrário ao do spin nuclear, numa assimetria grande demais para ser erro de aparelho.
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Lee trabalhava no mesmo andar que Wu e foi conversar com ela sobre o problema da paridade assim que o artigo com Yang ficou pronto. Ela conhecia o cobalto-60 melhor do que qualquer pessoa disposta a tentar, e respondeu que o teste era viável, difícil e urgente, porque outros grupos leriam o mesmo artigo.
Wu desistiu da viagem de navio que faria com o marido à Europa e à Extremo Oriente, avisou que ele fosse só, e procurou o único lugar do país com criogenia de milésimos de grau: o grupo de baixas temperaturas do Bureau Nacional de Padrões, em Washington, liderado por Ernest Ambler.
O aparelho que ela desenhou com Ambler, Raymond Hayward, Dale Hoppes e Ralph Hudson resolvia quatro problemas ao mesmo tempo, e cada um deles podia matar a medida sozinho:
| Alinhar os núcleos uma camada finíssima de cobalto-60 foi depositada na superfície de um cristal de nitrato de cério e magnésio, resfriado por desmagnetização adiabática até a faixa dos milésimos de kelvin |
| Medir o alinhamento dois detectores de iodeto de sódio acompanhavam os raios gama emitidos pela amostra, cuja distribuição indicava o quanto os núcleos ainda estavam apontados |
| Contar os elétrons lá dentro um cristal de antraceno ficava dentro do criostato e a luz de cada cintilação saía por um bastão de acrílico de mais de um metro até a fotomultiplicadora, do lado de fora do frio |
| Excluir o defeito do próprio equipamento o campo magnético era invertido a cada rodada, e uma assimetria de aparelho apareceria igual nos dois sentidos, enquanto a assimetria da natureza trocaria de sinal |
O trabalho começou em setembro de 1956 e consumiu três meses de fracasso técnico. O bastão de acrílico atrapalhava o vácuo, a amostra aquecia rápido demais, e cada rodada de medida durava poucos minutos antes de o cristal perder o frio conquistado.
Na véspera do Natal de 1956, a contagem já mostrava a assimetria, e Wu proibiu a equipe de comemorar antes de repetir tudo. Ela passou o feriado em Washington refazendo a montagem, e no dia 27 o efeito reapareceu limpo, com quase o dobro de elétrons de um sentido em relação ao outro.
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"Para decidir sem ambiguidade se a paridade se conserva nas interações fracas, é preciso realizar um experimento que determine se essas interações distinguem a direita da esquerda."
Tsung-Dao Lee e Chen Ning Yang, Question of Parity Conservation in Weak Interactions, Physical Review, 1956
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Em 15 de janeiro de 1957, Columbia convocou uma entrevista coletiva e os dois artigos foram enviados à Physical Review no mesmo dia. Wolfgang Pauli, que tinha escrito semanas antes que não acreditava num Deus canhoto e se ofereceu para apostar alto contra o resultado, admitiu por carta que perdera e que estava feliz por não ter apostado dinheiro.
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