In partnership with

Biografia do Dia   Biografia do Dia
ED 040
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

A filha da doméstica que assinou o projeto da usina

Em dezembro de 1945, Enedina Alves Marques recebeu em Curitiba o diploma de engenharia civil aos 32 anos, sozinha entre homens.

Prancheta e escalímetro sobre mesa de madeira, Curitiba, 1945.

Curitiba, 1945: a prancheta e o escalímetro

▼
 

Aos 32 anos, a professora Enedina Alves Marques atravessou o pátio da Universidade do Paraná, em Curitiba, para receber o diploma de engenharia civil de dezembro de 1945, com a mãe, empregada doméstica, sentada na plateia.

O caminho até aquele pátio tinha começado numa casa onde ela não era hóspede nem filha. A mãe lavava, cozinhava e servia a mesa; a menina crescia no corredor de serviço, entre o fogão e a sala de visitas, ouvindo conversa de gente com estudo e sem direito de sentar junto.

O Brasil de 1913, ano em que ela nasceu, tinha saído da escravidão havia 25 anos. Curitiba era cidade de erva-mate e de imigrante europeu recém-chegado, com poucas escolas públicas e uma elite que mandava os filhos estudar no Rio de Janeiro ou em São Paulo.

Engenharia, naquele arranjo, era ofício de homem branco de sobrenome conhecido. Quem projetava ponte, estrada e barragem no Paraná saía de família que já tinha terra, cartório ou cadeira na política, e entrava na faculdade sabendo de antemão qual escritório iria empregá-lo.

Enedina entrou por outro lugar. Fez a Escola Normal, virou professora primária, deu aula em cidade do interior paranaense, juntou salário de professora durante anos e usou o dinheiro do próprio bolso para pagar a matrícula num curso onde ninguém parecido com ela tinha entrado.

Ela levou cinco anos dentro da Faculdade de Engenharia como a mulher sozinha daquela turma, e a pessoa negra sozinha daquela sala. Não existe registro de queixa pública dela sobre a solidão daquela sala, e também não existe registro de que alguém tenha facilitado a passagem dela.

O diploma de 1945 fez dela a primeira engenheira civil negra do Brasil, e o cargo público que veio depois a levou para os estudos da usina hidrelétrica de Capivari-Cachoeira, a maior obra de energia que o Paraná tentava erguer.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Vida de Hoje

A professora que juntou salário para a matrícula

Enedina Alves Marques nasceu em Curitiba em 13 de outubro de 1913, filha de Paulina Alves Marques, empregada doméstica, e de Virgílio Alves Marques. A família morava de favor na casa dos patrões, arranjo comum para trabalhadora doméstica negra no Paraná daquele começo de século.

A casa que empregava Paulina era de gente letrada, com biblioteca e jornal assinado. Enedina cresceu ali com acesso a livro e a papel, e a família da patroa passou a bancar parte dos estudos da menina, prática que os relatos reunidos sobre a vida dela descrevem como apadrinhamento, não como salário.

O arranjo tinha limite claro. Menina negra criada em casa de patrão ganhava leitura e boas maneiras, e o destino previsto era continuar servindo na mesma cozinha quando a mãe não desse mais conta do serviço.

Enedina escolheu a porta que a escola pública deixava entreaberta. Cursou a Escola Normal de Curitiba, que formava professora primária, e saiu de lá com diploma de docente no começo dos anos 1930, credencial que valia concurso e salário do Estado.

Deu aula em escola de Curitiba e foi depois para Rio Negro, cidade paranaense na divisa com Santa Catarina, lecionar para turma de primeiras letras. Professora de grupo escolar naquele período ganhava pouco, morava em pensão e passava o mês inteiro corrigindo caderno à luz de lampião.

Enedina guardou dinheiro de salário de professora primária durante anos com um destino só: pagar a matrícula e as taxas de um curso superior de engenharia, que nenhuma mulher negra tinha cursado no país até ali.

Em 1940 ela prestou exame e entrou na Faculdade de Engenharia do Paraná, que integrava a Universidade do Paraná, em Curitiba. Tinha 27 anos quando sentou na primeira aula, idade alta para calouro de engenharia naquela época, e chegou com dez anos de sala de aula nas costas, do lado do professor.

O curso durava cinco anos e misturava cálculo, resistência de materiais, hidráulica, topografia, desenho técnico e canteiro de obra. Boa parte das aulas práticas acontecia fora da faculdade, em obra de estrada e de ponte, com turma de homem, engenheiro chefe homem e operário homem.

A sala dela tinha um punhado de estudantes, todos homens menos ela. Os registros da universidade guardam a lista de matrícula e as notas; não guardam ata de conflito, elogio ou incidente, e o dia a dia daquela turma com ela dentro seguiu sem cronista.

Ela dividia o tempo entre a faculdade e o trabalho. Continuou dando aula para se sustentar durante o curso, prática que aparece nos levantamentos biográficos feitos por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná, herdeira da instituição onde ela estudou.

 
 

II  O Momento que Virou

Dezembro de 1945, o diploma que ninguém previa

A formatura aconteceu em dezembro de 1945, em Curitiba, poucos meses depois do fim da Segunda Guerra Mundial e no ano em que Getúlio Vargas caiu e o país voltou a ter eleição presidencial.

Enedina recebeu naquela cerimônia o título de engenheira civil. Ela era a primeira mulher formada em engenharia civil no Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil, marca que nenhum documento posterior contestou.

O diploma resolvia uma parte do problema e abria outra. Engenheiro recém-formado em 1946 procurava emprego em escritório particular de projeto, em construtora ou no serviço público estadual, e os dois primeiros caminhos dependiam de indicação, de clube e de almoço de família.

Enedina foi para o serviço público do Paraná, onde o concurso e o cargo pesavam mais que a apresentação pessoal, e tomou posse como engenheira do Estado no Departamento de Águas e Energia Elétrica.

O Paraná dos anos 1940 e 1950 tinha um problema de energia elétrica que travava tudo. Curitiba crescia, o norte do Estado plantava café em ritmo de fronteira agrícola e a rede existente vinha de usinas pequenas, insuficientes para indústria e para iluminação pública de cidade média.

O governo estadual montou então um plano de eletrificação que dependia de estudo de bacia hidrográfica: medir vazão de rio, calcular desnível, projetar barragem, túnel de adução e casa de força. Trabalho de gabinete e de campo, com equipe de engenheiro civil debruçada sobre planta e caderneta de nível.

Enedina trabalhou nesse conjunto de estudos, e o nome dela aparece ligado à usina hidrelétrica de Capivari-Cachoeira, projetada para aproveitar a água do rio Capivari desviada por túnel através da Serra do Mar até o rio Cachoeira, no litoral paranaense, com um desnível de centenas de metros.

A ideia era rara no país. O projeto furava a serra e entregava a água na face voltada para o litoral, onde a montanha despenca, e ganhava uma queda de centenas de metros que a própria calha do rio jamais daria. O desnível grande é o que transforma volume de água em potência elétrica.

Ela se aposentou do serviço público em 1962, antes de a obra sair do papel. A construção do Capivari-Cachoeira começou depois, na segunda metade dos anos 1960, e a usina entrou em operação em 1971, já com o nome de Governador Parigot de Souza.

Quem trabalhou nos estudos não assina concreto. Assina planta, memorial de cálculo e relatório técnico, papel que fica no arquivo do órgão público e que sustenta a decisão de construir. A contribuição de Enedina está nessa camada, e é assim que os registros do Estado a descrevem.

Aqui cabe dizer o que não se sabe. Não existe entrevista publicada com ela, nem carta, nem diário conhecido. Não se sabe quem a convenceu a prestar engenharia, nem como ela foi recebida no primeiro dia de aula, porque ninguém anotou, e os colegas de turma morreram sem deixar depoimento sobre o assunto.

 

Quem banca a edição de hoje

100+ Claude Code hacks to ship code 10X faster

Top engineers at Anthropic and OpenAI say AI now writes 100% of their code.

If you're not using AI, you're spending 40 hours doing what they do in 4.

These 100+ Claude Code hacks fix that and help you ship 10x faster.

Sign up for The Code and get:

  • 100+ Claude Code hacks used by top engineers — free

  • The Code newsletter — learn the latest AI tools, tips, and skills to code faster with AI in 5 minutes a day

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Que Ficou

O nome que voltou ao mapa quarenta anos depois

Enedina trabalhou como engenheira do Estado por cerca de 16 anos, entre a formatura e a aposentadoria de 1962. Passou a maior parte desse tempo em repartição de obras públicas do Paraná, com cargo, salário e função definidos por lei, e sem holofote nenhum.

Ela morou em Curitiba, não se casou, não teve filhos e viveu de perto com a mãe e com um grupo pequeno de parentes. Morreu na cidade em agosto de 1981, aos 67 anos, e o sepultamento não rendeu nota em jornal de circulação estadual.

Por duas décadas o nome dela sumiu do assunto público. A primeira engenheira negra do país não entrou em livro didático, não virou nome de prédio e não apareceu nas comemorações de aniversário da faculdade onde havia estudado.

O resgate começou nos anos 2000, por trabalho de pesquisadores ligados à Universidade Federal do Paraná e a grupos do movimento negro paranaense, que foram aos arquivos da universidade e do Estado procurar matrícula, diploma, ficha funcional e registro de obra.

O que esses arquivos devolveram é o esqueleto de uma carreira: matrícula em 1940, diploma de engenharia civil em 1945, posse no serviço público, atuação nos estudos de eletrificação do Paraná e aposentadoria em 1962, com o nome escrito por extenso em cada documento.

A partir dessa papelada, o nome voltou ao mapa da cidade. Enedina Alves Marques batiza hoje rua em Curitiba, aparece em escola e em programa de incentivo à presença de mulheres negras na engenharia, e virou tema de exposição e de documentário produzidos no Paraná.

A engenharia brasileira ainda repete a sala de 1945 em escala menor. Mulher negra segue minoria pequena nos cursos de engenharia do país e nas diretorias de obra, e cada levantamento novo do Conselho Federal de Engenharia sobre composição da categoria confirma que a distância não se fechou.

O que a vida dela mostra não é talento excepcional, e sim uma conta de custo. Enedina precisou de diploma de professora, de dez anos de sala de aula, de salário guardado e de cinco anos de curso noturno de cálculo para chegar ao mesmo ponto de partida que os colegas ganhavam de berço.

"Quantos anos de salário guardado o seu ponto de partida custou a alguém?"

Não ficou registro de fala pública de Enedina Alves Marques, nenhuma frase dita em cerimônia ou em entrevista. Ficou a assinatura que ela repetiu por dezesseis anos no rodapé de planta e de relatório técnico do Estado do Paraná: "Enedina Alves Marques, engenheira civil."

 
 

Ebook + app · Biografia do Dia

Capa do ebook

o ebook

ensina

+
O app no celular

o app

treina

A Carta ao Mecenas, no ebook e no app.

📖O ebook ensina: O pedido de meia página que abriu portas grandes, adaptado pro seu email de hoje.
📱O app treina: 1 movimento por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Qual era o mecanismo do projeto da usina Capivari-Cachoeira que Enedina ajudou a estudar?

ARepresar o rio Capivari numa barragem alta, usando só a força da correnteza local
BDesviar a água do rio Capivari por um túnel através da Serra do Mar até o rio Cachoeira, aproveitando um desnível de centenas de metros
CConstruir uma sequência de pequenas usinas ao longo do curso natural do rio Capivari
DImportar turbinas europeias para compensar a baixa vazão do rio Capivari

Resultado da última edição: 100% acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🖋️🖋️🖋️🖋️🖋️  ótima 🖋️🖋️🖋️🖋️  boa 🖋️🖋️🖋️  ok 🖋️🖋️  ruim 🖋️  péssima
 
Escolha a próxima edição

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A pauta vencedora vira uma próxima edição.

Voto aberto até 17/09, 15h30

A Mansa Musa →
B Sor Juana Inés →
C Srinivasa Ramanujan →
D Tsutomu Yamaguchi →

100% escolheram Ibn Battuta na ed 031

 
Recomendação de Newsletter
Mistérios Milenares

Mistérios Milenares

Toda noite, 20:20 na sua caixa: o enigma, as evidências e a pergunta que ninguém respondeu. Com o rigor que você sempre quis e nunca achou em português.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Chame mais um leitor pras vidas que ficaram

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
EDIÇÃO
Colecionador
 
DO MÊS
🥇
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook A Carta ao Mecenas
ebook A Carta ao Mecenas

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
 
 

Três minutos. Um nome novo pro dia.

Biografia do Dia

BIOGRAFIA DO DIA

Uma vida por dia, e o que ficou dela

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter