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A escola de meninas que os jornais do Rio quiseram fechar
Em 1838, Nísia Floresta abriu na corte um colégio que ensinava latim, geografia e educação física a meninas, e respondeu à imprensa por escrito.
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A sala de aula que virou caso de jornal
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A lei que criou a escola pública no Brasil tem data e tem letra miúda.
Em 15 de outubro de 1827, o Império mandou abrir escolas de primeiras letras em todas as cidades, vilas e lugares mais populosos, e autorizou escolas de meninas onde a população justificasse. No mesmo texto, separou o que cada lado ia aprender.
Os meninos teriam leitura, escrita, as quatro operações, noções de geometria prática e gramática da língua nacional. As meninas teriam leitura, escrita, as quatro operações e, no lugar da geometria, as prendas que servem à economia doméstica.
A conta seguinte também estava na lei: a professora ganharia menos que o professor da mesma cadeira, porque ensinava menos matéria.
Trinta e cinco anos depois, o primeiro censo nacional mediu o resultado. Em 1872, entre as pessoas livres, cerca de 23% dos homens sabiam ler e escrever, contra cerca de 13% das mulheres, num país de 9,9 milhões de habitantes.
O ensino além das primeiras letras, para quem tinha dinheiro, era casa e não escola. Meninas de família abastada recebiam mestre particular de piano, francês e bordado, e a instrução parava onde começava o que se considerava assunto de homem: latim, história antiga, geografia física, matemática além do troco.
Colégio de meninas existia na corte, e o programa era esse. Diploma nenhum saía dali, porque nenhuma faculdade brasileira aceitava mulher matriculada, e as três que o Império tinha em 1838 formavam médicos e advogados homens.
A imprensa do Rio de Janeiro, naquela década, era o tribunal onde reputação se ganhava e se perdia. Jornais diários como o Jornal do Commercio e o Diário do Rio de Janeiro publicavam artigo assinado, artigo anônimo, réplica e tréplica sobre qualquer assunto, e um colégio dependia da opinião impressa para receber matrícula.
A vida de hoje é a de uma potiguar de 28 anos que chegou à corte vinda de Porto Alegre, alugou uma casa e pendurou na porta a placa de um colégio para meninas com latim no programa.
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I A Vida de Hoje
A menina de Papari e a lista de matérias
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Ela chegou à corte em 1838 com dois filhos e nenhuma renda de família. Veja o que trouxe de Papari até a placa do colégio.
Dionísia Gonçalves Pinto nasceu em 12 de outubro de 1810, no povoado de Papari, no Rio Grande do Norte, filha do advogado português Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa e da brasileira Antônia Clara Freire. O nome que o Brasil decorou, Nísia Floresta Brasileira Augusta, ela mesma montou depois, juntando o apelido de infância, o nome do engenho da família, a pátria e o nome do companheiro.
A infância foi de mudança forçada. A família saiu do Rio Grande do Norte para Pernambuco por causa da hostilidade contra portugueses no período, e o pai foi assassinado em Cabo de Santo Agostinho em 1828, quando ela tinha 17 anos.
Antes disso veio um casamento arranjado. Aos 13 anos ela foi casada com Manuel Alexandre Seabra de Melo, senhor de engenho, e voltou para a casa da mãe pouco tempo depois, decisão rara o bastante para render processo e comentário.
Depois se uniu a Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante de direito em Olinda, com quem teve Lívia Augusta e Augusto Américo. Ele partiu em 1833, e ela ficou viúva aos 22 anos com duas crianças pequenas e nenhuma renda de família.
O primeiro livro é de 1832, publicado em Recife quando ela tinha 21 anos: Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens. O volume se apresenta como versão livre de um texto inglês do século 18, e o argumento central é direto: mulheres não têm inteligência inferior, têm instrução inferior.
Da estreia até a corte foram sete anos e três cidades. Recife, Porto Alegre e por fim o Rio de Janeiro, onde ela chegou em 1838 com os dois filhos e a mãe.
Sustento, para uma mulher letrada e sem herança no Império, tinha um caminho só que não passava por caridade: ensinar. Ela montou o Colégio Augusto, no centro da corte, e batizou a escola com o nome do companheiro que tinha partido.
O internato e semi-internato recebia meninas de famílias que podiam pagar mensalidade. O que mudava era a lista de matérias afixada.
Português, francês, italiano e inglês. Geografia e história. Latim. Aritmética. Desenho, música e dança. E educação física, com exercício de corpo previsto na grade, numa época em que menina de família passava o dia sentada.
Ela também não ficou só na direção da casa. Escrevia para a imprensa, publicou Conselhos à minha filha em 1842, e o colégio virou endereço conhecido, com o nome dela citado em anúncio e em nota de jornal.
O tamanho do programa criava uma exposição nova. Uma escola comum de meninas não dava o que discutir; uma escola que ensinava latim e mandava as alunas se exercitarem entrava na pauta de quem escrevia opinião todo dia.
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II O Momento que Virou
A resposta que ela mandou imprimir
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O momento que virou não foi a inauguração do colégio. Foi o dia em que a crítica saiu impressa e ela decidiu responder no mesmo lugar em que tinha sido acusada: no jornal, por escrito, com o nome dela embaixo.
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O ataque veio pelo formato mais usado da época, o artigo de jornal sobre um estabelecimento da cidade. A acusação tinha duas pernas.
A primeira dizia respeito ao programa. Ensinar latim, geografia e ciências a meninas seria desviar moça do destino dela, encher a cabeça de matéria inútil para quem ia administrar uma casa.
A segunda era sobre a diretora. Uma mulher separada do primeiro marido, viúva do segundo, autora de livro sobre direitos das mulheres e dona do próprio negócio dava material fácil para quem quisesse atacar a conduta em vez do currículo.
O caminho previsível seria calar, esperar o assunto morrer e apertar o programa. Uma escola vivia de matrícula, e mãe de aluna lia jornal.
Ela fez o contrário. Levou a defesa ao mesmo circuito impresso, respondeu ponto por ponto e assinou.
Publicou nos jornais da corte artigos em que descrevia o que era ensinado e por que, defendendo que o método aplicado no colégio formava mulher capaz de raciocinar, e não de repetir.
Aluna por aluna, chamava a atenção do leitor para o resultado da casa em vez do boato: exames públicos, trabalho apresentado, língua estrangeira falada diante de convidados.
Exame público de fim de ano era prática comum na instrução do Império, e ela usou a prática como prova. Quem quisesse conferir se menina aprendia latim entrava e assistia.
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"A educação da mulher deve ser um dos primeiros cuidados de um governo que se preze."
Nísia Floresta, Opúsculo Humanitário, 1853
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O colégio não fechou. Funcionou por quase duas décadas no Rio, com interrupção apenas quando ela viajou à Europa em 1849, levando a filha, e retomou a casa depois de voltar ao Brasil em 1852.
A defesa impressa teve efeito além da matrícula. Colocou dentro de um jornal diário, lido por comerciante e por funcionário público, a discussão sobre o que uma menina podia estudar, num país onde a lei já tinha decidido o assunto em 1827.
Em 1853 ela transformou a experiência de sala em livro. O Opúsculo Humanitário reúne 62 artigos publicados antes na imprensa e sustenta que a instrução feminina é questão de Estado, não de família.
O que virou em 1838 não foi a lei da instrução pública, que continuou com prendas domésticas no lugar da geometria por décadas. Foi o precedente: um colégio de meninas com latim no programa sobreviveu à acusação pública porque a diretora respondeu por escrito, e o texto ficou registrado.
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