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A conta que Bazalgette fez em dobro

Aos 39 anos, o engenheiro Joseph Bazalgette assumiu o esgoto de Londres no Grande Fedor e dobrou o diâmetro que tinha calculado.

Galeria de esgoto vitoriana em tijolo, arco alto iluminado por lampião, planta de engenharia aberta sobre a mesa.

Londres, 1858: a galeria de tijolo de Bazalgette

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Aos 39 anos, o engenheiro Joseph Bazalgette abriu na prancheta do Metropolitan Board of Works (a junta de obras da capital britânica) um plano de esgoto que Londres vinha engavetando fazia anos, e voltou a refazer as contas no verão mais quente que a cidade lembrava.

Era junho de 1858. O Tâmisa recebia sem filtro algum os canos e as fossas de uma cidade de quase 2,5 milhões de habitantes, contados pelo censo britânico de 1851, e o calor fermentou a mistura. O cheiro subiu da água e entrou pelas janelas do Palácio de Westminster, recém-reconstruído na margem do rio.

Os deputados mandaram encharcar as cortinas com cloreto de cal (um desinfetante em pó, à base de cloro) na esperança de barrar o fedor. Não barrou. Houve quem propusesse transferir as sessões para Oxford. A imprensa batizou aquele verão de Great Stink, o Grande Fedor.

Benjamin Disraeli, então ministro da Fazenda, subiu à tribuna em 15 de julho e descreveu o rio como "uma lagoa estígia, exalando horrores inefáveis e insuportáveis". Estígia vem do Estige, o rio dos mortos na mitologia grega. Em dezoito dias, a lei que dava dinheiro e poder à junta de Bazalgette passou pelas duas casas do Parlamento.

O orçamento autorizado foi de 3 milhões de libras. O plano previa interceptores (galerias que correm paralelas ao rio e recolhem o que antes caía nele) nas duas margens do Tâmisa, levando o esgoto para leste, longe das casas.

Foi nessa hora que o engenheiro fez a conta que define a história. Pegou a rua mais povoada de cada distrito, estimou a vazão por morador com folga generosa e chegou ao diâmetro necessário para cada galeria. Então dobrou o número.

Ninguém pediu. Nenhum regulamento exigia. A obra ficaria mais cara, mais funda e mais lenta. Para entender por que um homem cauteloso escolheu o gasto maior, é preciso voltar ao engenheiro de ferrovia que quase quebrou de cansaço aos 28 anos.

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I  A Vida de Hoje

Os anos de trilho e de cólera

Joseph William Bazalgette nasceu em 28 de março de 1819, em Enfield, ao norte de Londres, filho de um capitão da Marinha Real ferido nas guerras contra Napoleão. O avô, Jean-Louis Bazalgette, era um alfaiate francês que atravessou o canal e fez fortuna vestindo o príncipe regente.

O menino não passou por universidade. Aos 17 anos virou aprendiz do engenheiro John Benjamin Macneill, construtor de ferrovias, e aprendeu o ofício no campo, em obras de drenagem de terras no norte da Irlanda, medindo declive e vazão com trena e nível.

Em 1842 abriu escritório próprio em Westminster. Chegou a febre das ferrovias, a corrida de investidores que encomendava linhas novas aos montes, e ele assinou projeto atrás de projeto. Em 1847 o corpo cobrou: um colapso de exaustão o tirou do trabalho por meses.

Voltou em 1849 por uma porta menor, como agrimensor assistente da Metropolitan Commission of Sewers, a comissão de esgotos da capital. Londres saía de uma epidemia de cólera que o General Register Office, pelas contas do estatístico William Farr, registrou com mais de 14 mil vítimas na cidade entre 1848 e 1849.

Quase ninguém culpava a água. A teoria dominante era a do miasma (o ar podre que, se acreditava, espalhava a doença), e Bazalgette pensava assim também. Em 1854, o médico John Snow mostrou que os casos do bairro do Soho se concentravam em volta de uma bomba de água na Broad Street. Pouca gente o levou a sério.

A comissão trocava de membros sem parar, e o engenheiro-chefe Frank Forster adoeceu sob a pressão e deixou o cargo sem vida em 1852. Bazalgette herdou a mesa, os mapas e a briga.

O plano que salvou Londres já estava desenhado anos antes do Grande Fedor. Bazalgette passou quase uma década refazendo traçados, submetendo e vendo tudo voltar recusado: o calor de 1858 não criou o projeto, só destravou o dinheiro e a vontade política.

Em 1856 nasceu o Metropolitan Board of Works, e ele virou engenheiro-chefe da junta nova. O ministro de obras, Sir Benjamin Hall, devolveu o traçado dele repetidas vezes, pedindo que as descargas saíssem ainda mais longe da cidade.

Em casa, a rotina era de funcionário de repartição com família numerosa. Casado desde 1845 com Maria Kough, morava com os filhos em Morden, ao sul do rio, e ia a pé ou de carruagem para o escritório da junta em Spring Gardens.

 
 

II  O Momento que Virou

O diâmetro que saiu em dobro

As escavações começaram em janeiro de 1859. O desenho usava a gravidade: cinco grandes interceptores, três ao norte e dois ao sul do Tâmisa, com caimento suave de oeste para leste, recolhendo os canos antigos que desciam perpendiculares ao rio.

No leste, onde o terreno ficava baixo demais, estações de bombeamento levantariam o esgoto até os reservatórios de Beckton, na margem norte, e de Crossness, na margem sul. Dali, a descarga ia para o rio só na maré vazante, para a corrente levar tudo rumo ao mar.

A decisão do diâmetro saiu da planilha de cada galeria. Segundo o historiador Stephen Halliday, no livro The Great Stink of London (1999), Bazalgette calculou a vazão pela densidade mais alta de cada área e, antes de assinar, mandou dobrar o diâmetro de todos os canos.

A matemática da folga é maior do que parece. Dobrar o diâmetro de um tubo multiplica por quatro a área da seção, o espaço por onde a água passa. A cidade ganhou capacidade para uma população que ainda não existia.

Bazalgette sabia que abrir as ruas de Londres uma segunda vez sairia mais caro que qualquer tijolo a mais na primeira. A folga, que no papel parecia desperdício, era a peça mais barata do projeto inteiro.

A mesma cautela entrou no material. Ele exigiu cimento Portland, então pouco usado em obra pública, e montou um regime de testes: cada lote tinha amostras moldadas, curadas na água e esticadas numa máquina até romper. O engenheiro John Grant, assistente dele, recusava a carga que não aguentasse a tração mínima.

Os números da obra assustavam os próprios contemporâneos. Foram 132 quilômetros de interceptores e cerca de 1.770 quilômetros de coletores de rua, erguidos com 318 milhões de tijolos. A demanda chegou a subir o preço do tijolo em Londres.

Em 4 de abril de 1865, o príncipe de Gales ligou as quatro máquinas a vapor de Crossness, dentro de um salão de ferro fundido pintado como catedral. O sistema do sul entrou em operação.

O leste da cidade atrasou. A estação de Abbey Mills só ficou pronta em 1868, e em 1866 uma nova onda de cólera atingiu justo os bairros ainda fora da rede. William Farr rastreou os casos até a East London Water Company, que distribuía água sem filtrar tirada do rio Lea. O resto de Londres, já ligado, passou quase ileso.

Na margem norte, as galerias correram por dentro do Victoria Embankment, o aterro inaugurado em 1870 que empurrou o rio para longe, abrigou a linha do metrô e deu à cidade uma avenida nova.

 

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III  O Que Ficou

A folga que chegou ao século 21

A rede principal ficou pronta em 1875, e a rainha Vitória fez de Bazalgette cavaleiro no mesmo ano. Ele seguiu na junta, projetou as pontes de Putney, Hammersmith e Battersea e a balsa gratuita de Woolwich.

O sistema tinha um ponto fraco, e ele apareceu em 1878. O vapor de passeio Princess Alice afundou no Tâmisa bem diante das descargas de Beckton e Crossness, e centenas de passageiros se afogaram numa água carregada de esgoto bruto. O inquérito pressionou a junta, e a partir de 1887 o lodo passou a ser separado e levado de navio para despejo em alto-mar.

Bazalgette se aposentou em 1889, quando a junta foi substituída pelo London County Council. Faleceu em 15 de março de 1891, em Wimbledon, aos 71 anos.

Dez anos depois, a cidade instalou um memorial no Victoria Embankment com a inscrição "Flumini vincula posuit", em latim, que significa "ele pôs correntes no rio". O busto fica a poucos passos das galerias que ele desenhou.

Os canos dobrados de 1858 ainda carregam o esgoto de Londres. A cidade passou de 2,5 milhões para quase 9 milhões de moradores, e as galerias vitorianas aguentaram o salto porque foram desenhadas para uma multidão que ninguém tinha visto.

O limite chegou pela chuva. A rede de Bazalgette é combinada, leva esgoto e água pluvial no mesmo tubo, e quando o temporal enche as galerias o excedente transborda para o rio por válvulas de alívio. Segundo a Tideway, empresa que construiu o reforço da rede, esses transbordos lançavam no Tâmisa cerca de 39 milhões de toneladas de esgoto num ano típico.

A resposta foi o Thames Tideway Tunnel, um túnel de 25 quilômetros cavado sob o leito do rio e posto em operação em 2025. Ele intercepta os transbordos e os leva até Beckton, a mesma estação que Bazalgette escolheu no século 19.

O túnel novo não substitui a rede velha. Ele se pendura nela: os engenheiros do século 21 projetaram o reforço em volta das galerias de tijolo, que seguem em uso. Peter Bazalgette, tataraneto do engenheiro e produtor de televisão, passou a citar o antepassado como exemplo de obra pública pensada para gerações.

"Quanta folga você deixa, hoje, para um problema que ainda não chegou?"

Bazalgette resumiu a conta dobrada numa frase: "Só vamos fazer esta obra uma vez, e o imprevisto sempre aparece."

 
 
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Em 1866, uma nova onda de cólera atingiu bairros de Londres que ainda estavam fora da rede de esgoto. Até quem William Farr rastreou os casos?

AMetropolitan Commission of Sewers
BMetropolitan Board of Works
CEast London Water Company
DGeneral Register Office

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