|
|
|
100% escolheram Sor Juana Inés. Já saiu na edição 045.
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A carta que Hardy quase jogou no lixo
Aos 25 anos, o escriturário Srinivasa Ramanujan mandou de Madras a Cambridge páginas de fórmulas sem prova, e o professor chamou um colega.
|
Madras, 1913: o envelope para Cambridge
|
| ▼ |
| |
|
Aos 25 anos, o escriturário Srinivasa Ramanujan fechou os livros de conta do Porto de Madras, voltou para casa e copiou em papel barato dezenas de fórmulas que nenhum chefe tinha pedido. Em 16 de janeiro de 1913 despachou o maço pelo correio para a Inglaterra, endereçado a um professor de Cambridge que nunca tinha ouvido falar dele.
Eram nove páginas apertadas, com mais de cem resultados de teoria dos números, séries infinitas e frações contínuas (expressões em que uma fração se repete dentro dela mesma, sem parar). Nenhum vinha acompanhado de prova. A carta abria com uma apresentação curta e sem rodeio: ele não tinha curso universitário, trabalhava na contabilidade do porto e recebia vinte libras por ano.
Dois professores ingleses já tinham recebido pacote parecido meses antes. H. F. Baker e E. W. Hobson leram, não responderam nada sobre o conteúdo e devolveram a papelada para a Índia.
O terceiro destinatário era Godfrey Harold Hardy, de 35 anos, fellow do Trinity College e o matemático mais implicante de Cambridge em matéria de rigor. Ele abriu o envelope no café da manhã, suspeitou de fraude, foi dar aula e voltou ao maço por volta das nove da noite, chamando o colega John Edensor Littlewood para conferir com ele.
Perto da meia-noite os dois já tinham concluído que aquilo saíra da mão de um matemático de primeira linha. Hardy registrou depois que algumas daquelas fórmulas o derrotaram por completo, e que elas precisavam ser verdadeiras, já que ninguém teria imaginação bastante para inventá-las se fossem falsas.
Catorze meses depois, o escriturário desembarcava em Londres com um caderno de capa dura debaixo do braço.
O caminho que levou àquele envelope começou numa cidade de templos no sul da Índia, com um compêndio de fórmulas que um estudante hospedado na casa da família deixou ao alcance de um menino.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Vida de Hoje
O menino de Kumbakonam e o livro de Carr
|
|
Srinivasa Ramanujan nasceu em 22 de dezembro de 1887 em Erode, na presidência de Madras, e cresceu em Kumbakonam, cidade de templos às margens do rio Cauvery. O pai, K. Srinivasa Iyengar, era escriturário de loja de sáris; a mãe, Komalatammal, cantava no templo e comandava a casa, que sobrevivia alugando quartos a estudantes.
A escola foi fácil demais. Ele passou nos exames primários do distrito de Tanjore em 1897 com a melhor nota da região e, aos treze anos, já resolvia sozinho a trigonometria avançada dos veteranos.
Por volta de 1903, um dos estudantes hospedados na casa emprestou a ele um volume gasto: a Synopsis of Elementary Results in Pure and Applied Mathematics, que o inglês George Shoobridge Carr publicara em 1886. O livro listava milhares de resultados em sequência, quase sempre sem demonstração, feito catálogo de peças.
Aquele formato virou o método dele para o resto da vida. Ramanujan passou a anotar resultado atrás de resultado em cadernos de capa dura, sem escrever a ponte lógica entre um e outro, e essa lacuna seria a causa de quase toda dificuldade que ele teve com o mundo acadêmico depois.
O preço da obsessão veio rápido. Ele ganhou bolsa no Government College de Kumbakonam em 1904 e a perdeu no ano seguinte, porque preenchia as provas de inglês, história e fisiologia com contas de matemática. Tentou de novo no Pachaiyappa's College, em Madras, e reprovou pelo mesmo motivo.
Vieram cinco anos sem diploma, sem emprego e sem dinheiro. Ele dava aula particular por alguns rupias, adoeceu do estômago, passou por uma cirurgia em 1909 e continuou enchendo cadernos enquanto a família cobrava um rumo.
Em julho de 1909, por arranjo da mãe, casou-se com Janaki Ammal, uma menina de dez anos que, pelo costume da região, só foi morar com ele depois. Casado, ele precisava de salário, e saiu pela cidade com os cadernos procurando quem entendesse o que estava escrito ali.
O primeiro que entendeu foi Ramaswamy Aiyer, fundador da Sociedade Matemática Indiana, que leu os cadernos em 1910 e passou o rapaz adiante com cartas de recomendação. Pouco depois R. Ramachandra Rao, coletor do distrito de Nellore, bancou do próprio bolso o sustento dele por quinze meses só para que ele continuasse calculando.
Em 1911 saiu o primeiro artigo dele, sobre números de Bernoulli, no Journal of the Indian Mathematical Society. E em março de 1912 ele finalmente arrumou emprego de gente: escriturário classe III do Madras Port Trust, trinta rupias por mês, contabilidade de carga e navio.
O porto ajudou. O chefe imediato, Narayana Iyer, era tesoureiro da Sociedade Matemática Indiana e conferia contas com ele à noite, e o presidente, o engenheiro britânico Francis Spring, tolerava as fórmulas rabiscadas nas costas dos formulários de embarque.
|
|
|
|
|
II O Momento que Virou
As nove páginas que atravessaram o oceano
|
|
Foi esse grupo do porto que sugeriu o passo seguinte. Se nenhuma universidade indiana sabia julgar aquele material, o julgamento viria da Inglaterra, e a lista de nomes nasceu na mesa do Port Trust no fim de 1912.
Ramanujan escreveu primeiro a Henry Frederick Baker e a Ernest William Hobson, dois veteranos de Cambridge. Ambos devolveram a papelada. Um catálogo de teoremas sem prova, assinado por um desconhecido de Madras, tinha cara de manuscrito de maluco.
O terceiro nome da lista era Hardy, escolhido por causa de um livrinho dele, Orders of Infinity, de 1910, que tinha chegado a Madras. Na carta de 16 de janeiro de 1913, Ramanujan se apresentou como funcionário da contabilidade do porto, disse que não tinha formação universitária e pediu que o professor conferisse os resultados anexos e dissesse se algo merecia publicação.
O anexo trazia fórmulas de várias famílias: séries que somavam a valores fechados, uma expressão para contar quantos números primos existem abaixo de um limite dado, integrais e frações contínuas inéditas em Cambridge. Parte dos resultados já era conhecida na Europa, alguns estavam errados, e um punhado era novo e correto.
Hardy contou em 1937, na revista The American Mathematical Monthly, como separou o joio: os resultados conhecidos provavam que o remetente era competente; os errados mostravam que ele trabalhava sozinho, sem a literatura europeia; e as frações contínuas da última página não cabiam em nenhuma dessas duas caixas, porque nenhuma fraude teria fôlego para construir aquilo.
A resposta de Hardy, de 8 de fevereiro de 1913, elogiou o material e insistiu num ponto: ele queria as demonstrações. Ramanujan respondeu irritado, disse que o professor cobrava o método de prova sem olhar para o que o resultado significava, e mandou mais fórmulas.
Em paralelo, Hardy mexeu os pauzinhos na Índia. Em maio de 1913 a Universidade de Madras lhe deu bolsa de 75 rupias por mês, o dobro do salário do porto, e ele largou a contabilidade.
Faltava atravessar o mar, e aí o obstáculo deixou de ser matemático. Ramanujan era brâmane iyengar, vegetariano estrito, e a travessia do oceano era proibida pela ortodoxia da casta dele. A mãe vetou a viagem durante meses.
O desbloqueio veio por duas vias. Em janeiro de 1914, o jovem professor de Cambridge Eric Harold Neville viajou a Madras para dar um curso e passou semanas convencendo o rapaz e a família, garantindo hospedagem, dieta e bolsa. E Komalatammal cedeu depois de contar que a deusa Namagiri, padroeira da família, lhe aparecera em sonho mandando não atrapalhar o filho.
Ele embarcou no vapor S.S. Nevasa em 17 de março de 1914 e chegou a Londres em 14 de abril. O escriturário que ninguém quisera publicar entrou no Trinity College com dois cadernos que a matemática levaria oitenta anos para terminar de ler.
|
| |
|