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ED 012

A capa que Maria Firmina assinou sem o nome

Em 1859, uma professora negra de São Luís publicou o primeiro romance abolicionista do Brasil e assinou a capa apenas como Uma Maranhense.

Uma capa de livro do século 19 sobre a mesa de uma tipografia, com a linha por Uma Maranhense impressa no lugar do nome da autora.

A capa de 1859 sem o nome da autora

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Em 1859 faltavam 29 anos para a abolição no Brasil.

A escravidão ainda sustentava o trabalho no país, e o primeiro censo nacional, feito em 1872, contaria 1.510.806 pessoas escravizadas numa população de 9.930.478. O tráfico atlântico tinha sido proibido nove anos antes, pela lei Eusébio de Queirós, e o cativeiro dentro do país continuou intacto.

A literatura brasileira daquela década tratava de outros assuntos. A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, era de 1844. O Guarani, de José de Alencar, de 1857. O índio idealizado tinha entrado no romance nacional; a pessoa escravizada, não.

Os dois textos que o país decorou sobre o cativeiro ainda demorariam. O Navio Negreiro, de Castro Alves, é de 1869, dez anos depois. A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, é de 1875, dezesseis anos depois, e traz uma protagonista de pele branca.

Publicar um livro no Império também não passava por editora. Passava por tipografia, e a conta era do autor: papel, composição, impressão e uma lista de assinantes que se comprometiam a comprar antes de a máquina rodar.

Quem tinha nome de família conseguia quem bancasse. Quem não tinha, pagava do próprio bolso ou não publicava.

Havia ainda a questão da assinatura. Mulher que escrevia na imprensa do século 19 costumava aparecer sob pseudônimo, iniciais ou rótulo geográfico, e a prática era tão comum que virou convenção: nome inteiro na capa era coisa de homem.

São Luís, mesmo assim, tinha imprensa de sobra. A cidade era chamada de Atenas Brasileira pelo número de jornais, revistas e tipografias em funcionamento, e uma delas se chamava Tipografia do Progresso.

A vida de hoje é a de uma professora pública de 37 anos, de uma vila do litoral maranhense, que entregou a essa tipografia o manuscrito de um romance em que pessoas escravizadas falam em primeira pessoa.

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I  A Vida de Hoje

A professora de 1847 e a tipografia do Progresso

Ela passou num concurso público em 1847 e ficou 34 anos na mesma sala de aula. Veja o que veio antes do romance de 1859.

Maria Firmina dos Reis nasceu em 11 de março de 1822, na ilha de São Luís, filha natural de Leonor Felipa dos Reis e de João Pedro Esteves. O nome do pai, comerciante de posses, só apareceu registrado na certidão de óbito dela, 95 anos depois.

A própria data de nascimento demorou a ficar firme. Ela foi batizada em 21 de dezembro de 1825, e o registro de batismo fez com que muita biografia trouxesse 1825 como ano de nascimento até a pesquisa nos documentos do Arquivo Público do Maranhão fixar 1822.

Por volta de 1830 mãe e filha deixaram São Luís e foram morar na Vila de São José de Guimarães, no litoral, na casa de uma tia materna de condição melhor.

Guimarães ficava a um dia de viagem da capital, entre o mar e os manguezais, e vivia de pesca, de roça e do trabalho escravizado nas propriedades do entorno.

Menina negra e pobre não tinha escola secundária para frequentar no Maranhão de 1830. O que existia era instrução primária, distribuída de forma desigual entre meninos e meninas.

O que ela teve foi biblioteca em casa e um parente letrado. Francisco Sotero dos Reis, primo da família, era gramático, jornalista e professor de latim, e a formação dela saiu dali e da leitura por conta própria.

Em 1847, aos 25 anos, ela prestou o concurso público para a cadeira de instrução primária de Guimarães e foi aprovada.

O cargo era da província e vinha com vencimento fixo. Colocava uma mulher negra dentro do funcionalismo do Império numa vila onde a maioria das pessoas de pele preta era propriedade de alguém.

Ela ficou na mesma cadeira por 34 anos, até 1881. Nenhum outro emprego apareceu nesse período, e nenhum casamento.

Nos anos 1850 o nome dela começou a circular na imprensa da capital. Poemas e textos curtos saíram em publicações como O Jardim das Maranhenses, o Publicador Maranhense e o Eco da Juventude.

Ela escrevia poesia e prosa, e também compunha música, atividade registrada por quem a conheceu e pelos cadernos que ela deixou.

Foi nesse período que ficou pronto o manuscrito de um romance longo, com personagens escravizados que pensam, lembram e falam.

Levar o manuscrito à Tipografia do Progresso, em São Luís, significava pagar a impressão e reunir assinantes antes da tiragem.

Significava também decidir o que ia na capa. E o nome dela estava na lista de pagamento da instrução pública provincial, numa terra onde defender o fim do cativeiro em livro impresso era posição de minoria.

 
 

II  O Momento que Virou

As duas palavras que abriram Úrsula

O momento que virou não foi terminar o romance. Foi o que ela mandou imprimir na capa: no lugar do nome, a linha por Uma Maranhense, e logo adiante um prólogo em que a autora antecipava a objeção que fariam ao livro.

Úrsula saiu em 1859, pela Tipografia do Progresso, em São Luís, com o subtítulo romance original brasileiro e a assinatura por Uma Maranhense.

A trama de superfície é a de um romance da época. Úrsula, moça de família arruinada, e Tancredo, o rapaz que ela socorre ferido na estrada, presos entre o casamento e a vontade do comendador Fernando P.

O que não tinha precedente estava nos personagens de fundo. Túlio, nascido em cativeiro, aparece com juízo próprio sobre a condição em que vive e negocia a própria alforria com o pouco que consegue juntar.

E a preta Susana, chamada de mãe Susana no livro, ocupa um capítulo inteiro, o nono, para contar em primeira pessoa a vida que tinha antes.

Ela conta que era livre na África, que tinha marido e filha, que foi raptada e levada até a costa. Descreve o porão do navio: trezentos companheiros no mesmo espaço estreito e trinta dias de travessia até o litoral brasileiro.

É a primeira vez que a travessia do Atlântico aparece na literatura brasileira contada de dentro, pela voz de quem viajou no porão, e não pela voz de quem observa o navio de fora.

Antes do primeiro capítulo, na abertura do volume, vem um texto de duas páginas intitulado Duas Palavras ao Leitor.

"Sei que pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados."

Uma Maranhense, Duas Palavras ao Leitor, prólogo de Úrsula, 1859

O prólogo lido hoje soa como excesso de modéstia. Lido na época, é outra coisa: a autora enumera exatamente os motivos pelos quais a crítica descartaria o livro e tira do crítico o trabalho de dizê-los primeiro.

No mesmo texto ela explica para quem escreve. Pede que o bom acolhimento sirva de incentivo a outras mulheres, com instrução mais vasta que a dela, que ainda não tinham arriscado publicar.

A assinatura funciona pela mesma lógica. Uma Maranhense declara o gênero e declara a província, e guarda só o nome. Junto com o nome, guarda a cor de quem escreveu.

Guardar o nome tinha efeito prático numa vila pequena. A autora era funcionária da instrução pública provincial e assinava um livro contra a base econômica das fazendas vizinhas à escola dela.

O romance circulou em São Luís e foi anunciado na imprensa local. Depois da estreia saiu de vista, e as histórias da literatura brasileira escritas nas décadas seguintes não trouxeram nem o nome nem o pseudônimo.

O que virou em 1859 não foi o mercado editorial brasileiro, que continuou imprimindo por assinatura e por indicação. Foi quem podia narrar: pela primeira vez num romance brasileiro, o navio negreiro foi descrito por quem atravessou dentro dele.

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III  O Que Ficou

O sebo do Rio e o cabo no fundo do mar

No sebo: em 1962 o pesquisador paraibano Horácio de Almeida encontrou um exemplar de Úrsula numa loja de livro usado no Rio de Janeiro e foi atrás da identidade de Uma Maranhense.

Na reedição: em 1975 saiu a edição fac-similar do romance, organizada por José Nascimento Morais Filho com prefácio de Almeida, e no mesmo ano Morais Filho publicou a pesquisa Maria Firmina dos Reis: fragmentos de uma vida, com documentos e trechos do diário dela.

No fundo do mar: desde 2021 um cabo submarino de fibra ótica batizado de Firmina liga a costa leste dos Estados Unidos a Las Toninas, na Argentina, com pontos de chegada em Praia Grande, no litoral de São Paulo, e em Punta del Este.

Entre Úrsula e o sebo do Rio ela continuou publicando. Gupeva, novela de tema indígena, saiu em capítulos na imprensa maranhense a partir de 1861.

Cantos à Beira-mar, livro de poemas, é de 1871. O conto A Escrava, publicado na Revista Maranhense em 1887, trata do assunto de Úrsula sem rodeio, um ano antes da Lei Áurea.

Em 1888 ela escreveu a letra do Hino à Libertação dos Escravos, cantado na província no ano da abolição.

Em 1880, aos 58 anos, fundou em Maçaricó, povoado de Guimarães, uma escola gratuita e mista, com meninos e meninas na mesma sala.

Era a primeira escola mista do Maranhão, e a reação da vizinhança foi imediata. A escola fechou pouco depois de abrir.

Em 1881 ela se aposentou da cadeira pública, depois de 34 anos de sala de aula na mesma vila.

Os últimos anos foram de pobreza e de cegueira. Partiu em 11 de novembro de 1917, em Guimarães, aos 95 anos, na casa de Mariazinha, uma mulher que tinha sido escravizada.

O reconhecimento veio em etapas. Em 2017 a pesquisadora Dilercy Aragão Adler fixou a data de nascimento em 11 de março de 1822 a partir de documentos do Arquivo Público do Maranhão, e em 2019 o Google publicou um doodle sobre ela.

Em novembro de 2022, ano do bicentenário, a Festa Literária Internacional de Paraty dedicou a ela a 20ª edição, a primeira vez em vinte anos que a homenagem principal do evento foi para uma autora negra.

No dia 11 daquele mesmo mês, a Universidade Federal do Maranhão concedeu a ela o título de doutora honoris causa em caráter póstumo.

Um levantamento da Universidade de Brasília mediu quem assina o romance brasileiro contemporâneo, analisando 258 romances publicados entre 1990 e 2004 pelas três maiores editoras do país.

Dos autores desses livros, 93,9% eram brancos e 72,7% eram homens. Cerca de 80% dos personagens que eles criaram também eram brancos.

Em 1859 a autora do primeiro romance abolicionista brasileiro trocou o próprio nome pelo nome da província na capa do livro. Cento e sessenta e três anos depois, a maior festa literária do país dedicou a homenagem central ao nome que ela tinha guardado.

"Que trabalho seu está circulando por aí sem o seu nome, porque você decidiu sozinho que o nome ia atrapalhar?"

 
 
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