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ED 011

A bolsa que segurou Maria Augusta em Nova York

Em 1876, aos 16 anos, ela cursava medicina em Nova York porque nenhuma faculdade brasileira aceitava mulher, e o pai cortou o dinheiro.

Uma escrivaninha de pensão do século 19 com folha de carta pela metade, tinteiro aberto, pena e um bilhete de passagem de navio ao lado.

Carta pela metade e a passagem ao lado

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Em 1876 o Brasil tinha duas faculdades de medicina, uma no Rio de Janeiro e outra na Bahia, e nenhuma das duas matriculava mulher.

As duas foram criadas em 1808, com a chegada da corte portuguesa, e atravessaram o século formando turmas inteiras de homens. O impedimento não vinha de uma linha de lei que dissesse não, vinha da praxe da congregação, que nunca previu a candidata.

Havia um curso de partos aberto a mulheres dentro das faculdades. Ele formava parteira, com atribuição limitada, e não dava o diploma de médica nem o direito de assinar receita.

O ensino superior brasileiro só foi aberto às mulheres em 19 de abril de 1879, pelo decreto 7.247, a reforma assinada por Carlos Leôncio de Carvalho. Até essa data, quem quisesse o diploma precisava sair do país.

Sair do país tinha preço em moeda estrangeira. Passagem de navio, pensão, mensalidade, livros e anos longe de casa, tudo pago do bolso da família.

O destino quase obrigatório era Nova York. Desde 1863 funcionava lá o New York Medical College and Hospital for Women, fundado pela médica Clemence Lozier, com hospital próprio e corpo docente que aceitava aluna.

Nessa conta, o diploma dependia menos da vontade da candidata e mais do saldo do pai dela. Enquanto o negócio da casa ia bem, a filha estudava. Quando o negócio quebrava, a filha voltava.

Existia uma segunda porta, estreita e discricionária. Dom Pedro II financiava estudantes, artistas e pesquisadores, às vezes do bolso próprio, às vezes por decreto, e a lista de nomes que passaram por essa mão é longa.

A porta vinha com condição colada. Quem recebia dinheiro público para estudar fora devia voltar e aplicar o que aprendeu em território brasileiro.

A vida de hoje é a de uma carioca de 16 anos que estava no meio do curso de medicina em Nova York, com o pai recém-falido no Rio e uma passagem de volta comprada no nome dela.

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I  A Vida de Hoje

A revista americana e o navio de março de 1875

Ela cruzou o Atlântico aos 15 anos para entrar numa escola que exigia 18. Veja o que sustentava o curso dela em Nova York até 1876.

Maria Augusta Generoso Estrela se matriculou no New York Medical College and Hospital for Women em 17 de outubro de 1876, com 16 anos e dois a menos do que o estatuto exigia. Entrou depois de escrever uma dissertação sobre o que a levava à medicina, aceita pela congregação da escola.

Nasceu em 10 de abril de 1860, no Rio de Janeiro. O pai, Albino Augusto Generoso Estrela, era português e vivia do comércio de medicamentos na capital, como representante da casa americana Bristol.

A mãe se chamava Maria Luiza. A casa tinha dinheiro, e a filha foi mandada estudar em Portugal ainda menina.

Na volta de Portugal, aos 13 anos, o navio em que viajava se chocou com outra embarcação. Ela ajudou a cuidar dos feridos a bordo, e o episódio circulou na imprensa.

Em 1874, aos 14, leu numa revista americana a notícia de uma moça que tinha concluído o curso de medicina em Nova York. A informação de que aquele caminho existia chegou por uma página impressa.

A moça da notícia não era caso isolado. Faculdades de medicina para mulheres funcionavam nos Estados Unidos desde 1850, quando abriu a primeira delas, na Filadélfia.

No Rio não havia onde se inscrever. A família resolveu a questão da única forma disponível na época, comprando passagem.

Ela deixou o Brasil em 26 de março de 1875, com 15 anos. O primeiro ano nos Estados Unidos foi de escola preparatória, no condado de Oswego, no norte do estado de Nova York.

Em setembro de 1876 a transferência para o colégio médico feminino foi aceita, e no mês seguinte ela começou o primeiro ano.

A imprensa brasileira tratou o caso como assunto nacional. Em maio de 1879 a revista Echo das Damas publicou a biografia dela em seis edições seguidas.

Os jornais acompanhavam o desempenho dela no curso, as premiações e cada etapa vencida, e o nome virou referência na discussão sobre a entrada de mulheres nas faculdades brasileiras.

O curso era integral e caro. Mensalidade, hospital-escola, laboratório, livros e pensão, tudo em dólar, tudo dependendo das remessas que chegavam do Rio.

As remessas pararam em 1876. O negócio do pai, montado sobre a representação da Bristol, quebrou, e a renda da família foi junto.

Sem as remessas, a matrícula do ano seguinte ficava sem pagamento, e a pensão onde ela morava também.

Do Rio veio uma ordem, não uma pergunta. O pai mandava a filha encerrar o curso e voltar no primeiro navio.

 
 

II  O Momento que Virou

O decreto que pagou 100 mil réis por mês

O momento que virou não foi a matrícula em Nova York. Foi a resposta à ordem do pai: em vez de embarcar de volta, ela escreveu pedindo ao imperador do Brasil que pagasse o resto do curso.

Voltar não significava adiar o diploma, significava encerrar. Nenhuma faculdade brasileira aceitaria a matrícula dela no ano seguinte, nem no outro, e o curso de Nova York não tinha equivalente no Rio.

O pedido chegou a dom Pedro II em 1877. Sobre o caminho exato as fontes divergem: parte dos registros credita a carta escrita pela própria estudante, parte credita as reportagens que os jornais brasileiros vinham publicando sobre o caso.

O que veio depois está documentado e não depende da versão. O imperador mandou constituir por decreto uma bolsa para a estudante brasileira em Nova York.

O valor foi fixado em duas linhas. Cem mil réis por mês para pagar a faculdade, e trezentos mil réis por ano para as despesas gerais.

O dinheiro não caía na mão dela. Passava por Salvador de Mendonça, cônsul do Brasil em Nova York, que fazia o repasse.

Mendonça era jornalista e diplomata, e servia de ponte entre o governo brasileiro e o que se produzia nos Estados Unidos em ciência, imprensa e indústria.

A bolsa vinha com a mesma contrapartida das outras. Quem estudava fora com dinheiro do Estado devia voltar e exercer o aprendido em território brasileiro.

Ela ficou, e o curso seguiu. Em junho de 1880 o pai teve um derrame no Rio e não resistiu, e ela terminou as matérias sem ele.

As aulas acabaram em 1879 e o diploma não veio junto. O estatuto da escola exigia maioridade para diplomar, e ela ainda não tinha 21 anos.

A espera não era exceção pessoal. A regra valia para qualquer aluna que entrasse antes da idade, e a escola já tinha aberto uma exceção ao aceitar a matrícula de uma menina de 16 anos.

Foram quase dois anos entre a última matéria e a cerimônia, com o nome dela já circulando no Brasil como médica antes de existir o papel.

O diploma saiu em 29 de março de 1881. Ela foi escolhida oradora da turma e recebeu medalha de ouro pelo desempenho no curso e pela tese, intitulada Moléstias da Pele.

No mesmo ano, ainda em Nova York, ela e a colega brasileira Josefa Águeda Felisbella Mercedes de Oliveira começaram a publicar um periódico em português, impresso lá e distribuído nas capitais do Brasil.

Chamava-se A Mulher e saiu em seis números. Num deles as duas assinaram o artigo A mulher médica, defendendo o direito de a mulher exercer a profissão.

"Jornal ilustrado de literatura e belas artes, consagrado aos interesses e direitos da mulher brasileira."

A Mulher, periódico fundado em Nova York, 1881

O que virou em 1877 não foi a regra das faculdades brasileiras, que continuou fechada por mais dois anos. Foi quem pagava a conta: o diploma saiu do orçamento de uma família falida e entrou no orçamento do Império.

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III  O Que Ficou

A maioria que chegou 144 anos depois

No consultório: de volta ao Rio em 1882, revalidou o diploma na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e passou a clinicar, atendendo principalmente mulheres e crianças, com consulta gratuita para quem não podia pagar.

Na lei: o decreto 7.247, de 19 de abril de 1879, abriu o ensino superior brasileiro às mulheres, e em 1887 Rita Lobato Velho Lopes se formou pela Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira a fazer o curso inteiro dentro do país.

No mapa: o Centro Municipal de Saúde Maria Augusta Estrella funciona desde 1968 em Vila Isabel, no Rio de Janeiro, e atende os moradores do Andaraí, do Grajaú, do Maracanã e da própria Vila Isabel.

A revalidação não era carimbo. A regra em vigor obrigava quem trazia diploma estrangeiro a repetir exames diante da congregação brasileira antes de poder assinar receita.

Ela prestou os exames e ganhou o registro para atuar. O diploma que o Império ajudou a pagar voltou ao país e virou atendimento de consultório.

Em 1886 ela se casou com Antônio da Costa Moraes, farmacêutico, e passou a atender ao lado da farmácia dele. Tiveram cinco filhos.

Ficou viúva em 1904 e continuou clinicando no Rio pelas décadas seguintes.

Josefa, a sócia do periódico, terminou o curso em Nova York e foi exercer medicina em Pernambuco.

A publicação que as duas fundaram parou nos seis números, e a discussão levantada por ela seguiu nos jornais brasileiros pelos anos seguintes.

O nome dela virou patrono de cadeira e de rua. É patrona da cadeira 64 da Academia de Medicina de São Paulo, e há ruas com o nome dela em Poços de Caldas, em Minas Gerais, e em Porto Alegre.

Partiu em 18 de abril de 1946, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, oito dias depois do último aniversário.

O estudo Demografia Médica no Brasil, feito pela Faculdade de Medicina da USP com a Associação Médica Brasileira, projetou 635.706 médicos em atividade no país em 2025.

No mesmo levantamento, as mulheres apareceram como maioria da categoria pela primeira vez, com 50,9%, e a projeção para 2035 é de 55,7%.

Em 1876 nenhuma faculdade de medicina do Brasil aceitava a matrícula de uma mulher, e o curso de uma carioca de 16 anos dependeu de um decreto assinado à mão para não parar. Cento e quarenta e quatro anos depois daquele diploma, a maioria dos médicos em atividade no país é de mulheres.

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