|
|
A atriz que patenteou o rádio que saltava
Com um compositor, ela desenhou em 1942 um sinal que pulava entre 88 frequências, e a Marinha guardou a patente até o prazo vencer.
|
O rolo de pianola que virou 88 saltos
|
| ▼ |
| |
|
No verão de 1940, os comboios que atravessavam o Atlântico Norte carregavam comida, aço e combustível, e afundavam com uma regularidade que a marinha britânica media em toneladas por semana. O torpedo era a arma decisiva daquela guerra no mar, e o torpedo tinha um defeito velho: uma vez disparado, seguia reto e cego, sem correção de rota depois que o navio-alvo manobrava.
A saída técnica óbvia era guiar o torpedo por rádio. Um operador no navio ou no submarino observaria a trajetória e mandaria comandos de leme por um sinal transmitido durante o percurso, corrigindo o rumo em tempo real até o impacto.
O problema apareceu no mesmo instante em que a solução. Um comando de rádio viaja numa frequência, e uma frequência é um endereço fixo no espectro. Quem descobre o endereço passa a mandar naquele canal: basta despejar potência ali para o receptor do torpedo ficar surdo, ou pior, para o inimigo assumir o controle e devolver a arma contra quem a disparou.
Todo mundo que trabalhava com rádio militar conhecia a vulnerabilidade e conhecia também a ideia geral de contorná-la, que consistia em não ficar parado numa frequência só. Se o sinal pulasse de canal em canal muitas vezes por segundo, o bloqueador não teria onde se fixar, e o espectro inteiro seria caro demais para saturar de uma vez.
A ideia esbarrava numa dificuldade prática que a manteve no papel por anos. Transmissor e receptor precisariam pular exatamente juntos, na mesma ordem, no mesmo instante, sem trocar entre si nenhuma informação sobre a sequência de saltos, porque qualquer aviso de coordenação seria interceptado e entregaria o padrão de graça.
Ninguém dentro dos laboratórios navais tinha um mecanismo barato e confiável para manter duas máquinas separadas por quilômetros de mar tocando a mesma sequência ao mesmo tempo. Quem apresentou um mecanismo assim ao governo dos Estados Unidos, em 1941, foi uma dupla que não tinha crachá de laboratório nenhum: uma atriz contratada pela Metro-Goldwyn-Mayer e um compositor de música experimental.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Vida de Hoje
Viena, a mesa de jantar e as noites na prancheta
|
|
Ela ouviu engenheiros de munição a noite toda e desenhou a saída em casa.
Ela nasceu em Viena em novembro de 1914, filha única de um diretor de banco e de uma pianista, e cresceu recebendo do pai explicações sobre como funcionava cada máquina que aparecia na rua.
O nome de batismo era Hedwig Eva Maria Kiesler. As caminhadas com o pai pela cidade viravam aula improvisada de engenharia doméstica: como o bonde puxava corrente do cabo, como a prensa da gráfica alinhava o papel, como a impressora de rolo devolvia sempre a mesma sequência de movimentos.
O cinema chegou cedo e chegou grande. Aos dezoito anos ela já era conhecida na Europa central por um filme tcheco de 1933 que gerou escândalo em meia dúzia de países e a transformou em assunto de jornal antes de qualquer papel sério.
O casamento seguinte foi a escola técnica que ela não pediu. Em 1933 casou-se com Friedrich Mandl, dono da Hirtenberger Patronenfabrik, uma das maiores fábricas de munição da Áustria, e passou os quatro anos seguintes sentada em jantares onde engenheiros, oficiais e compradores discutiam projéteis, espoletas e sistemas de controle.
Ela ouvia tudo e não abria a boca. O marido a levava aos encontros como enfeite silencioso e, ao fazer isso, entregou de graça a uma mulher de vinte anos um curso de armamento que nenhuma universidade da época daria a ela.
O casamento virou cárcere doméstico e ela planejou a saída como quem planeja uma operação. Em 1937 escapou de Viena, chegou a Londres, e num transatlântico rumo a Nova York negociou pessoalmente o contrato com Louis B. Mayer, o chefe do maior estúdio de Hollywood.
Em Los Angeles ela virou produto de estúdio. Rebatizada Hedy Lamarr, foi lançada como a mulher mais bonita do mundo, escalada em sequência para papéis que exigiam presença e pouca fala, e mantida numa agenda de filmagem que consumia o dia inteiro.
A parte que o estúdio não sabia acontecia depois do expediente. No quarto da casa dela havia uma mesa de desenho com material de desenho técnico, e ali ela passava as noites projetando: uma pastilha efervescente para transformar água em refrigerante, uma reforma na asa do avião de Howard Hughes para reduzir o arrasto.
Hughes, que era sócio, admirador e piloto obcecado por velocidade, levou a sério o suficiente para colocar dois engenheiros da empresa dele à disposição dela. Foi o único apoio institucional que aquele trabalho recebeu de alguém em Hollywood.
Quando a guerra alcançou o noticiário americano, ela chegou a considerar deixar o cinema para se apresentar ao Conselho Nacional de Inventores. A resposta que recebeu por vias informais foi de que ela serviria melhor à causa vendendo títulos de guerra com o próprio rosto do que desenhando qualquer coisa.
O rosto rendeu muito dinheiro. Numa única noite de campanha em 1942 ela levantou sete milhões de dólares em bônus de guerra, um resultado que os jornais celebraram e que reforçou exatamente a leitura que ela queria desmontar.
|
|
|
|
|
II O Momento que Virou
1942, a patente 2.292.387 e o rolo da pianola
|
|
Ela levou o problema do bloqueio de rádio para um vizinho compositor, e a peça que destravou o projeto foi o rolo de papel perfurado que faz uma pianola tocar sozinha.
|
O vizinho era George Antheil, americano radicado em Los Angeles, autor de trilhas para cinema e conhecido no meio musical por uma obra de 1926 escrita para dezesseis pianolas, sirenes e hélices de avião, que ele havia tentado sincronizar num palco de Paris.
A conversa começou num jantar em 1940 e virou trabalho de mesa. Ela expôs a vulnerabilidade do torpedo teleguiado, ele reconheceu na descrição o mesmo desafio que enfrentara com os pianos mecânicos, e os dois passaram a se encontrar para desenhar o sistema no chão da sala com fósforos representando frequências.
|
"Hedy disse que sabia bastante sobre munições e sobre vários tipos de armamento, porque havia passado boa parte do tempo sentada ao lado do marido, ouvindo."
George Antheil, Bad Boy of Music, 1945
|
A solução tinha três partes encaixadas:
| O salto o transmissor não ficava numa frequência, pulava entre 88 canais numa ordem aparentemente aleatória, tempo curto demais em cada um para o bloqueador se fixar | | O sincronismo dois rolos de papel perfurado idênticos, um no navio e outro no torpedo, partiam juntos e liam a mesma sequência de furos, cada furo mandando o circuito para o canal seguinte | | O segredo a ordem dos saltos vivia gravada no próprio papel, nunca era transmitida pelo ar, e quem interceptasse o sinal ouviria apenas um chiado picado sem padrão legível |
O número 88 não caiu do céu. É a contagem de teclas de um piano padrão, e a escolha veio direta da experiência de Antheil com rolos de pianola, onde cada perfuração corresponde a uma nota fixa numa fileira conhecida.
O pedido entrou no escritório de patentes em junho de 1941, assinado por Hedy Kiesler Markey, o sobrenome do marido daquele momento, e por George Antheil. A concessão saiu em 11 de agosto de 1942 sob o número 2.292.387, com o título Secret Communication System.
Eles não pediram dinheiro por aquilo. Doaram a patente ao esforço de guerra dos Estados Unidos e apresentaram o projeto à Marinha esperando ver o sistema instalado em torpedos antes do fim do conflito.
A Marinha olhou o desenho e olhou o inventor. O parecer informal que circulou foi de que aquilo era grande demais para caber num torpedo, com oficiais reduzindo a proposta à imagem de enfiar uma pianola dentro da arma, e o assunto foi classificado e guardado.
Havia uma segunda camada na recusa que não estava escrita em documento técnico. A submissão vinha de uma atriz de estúdio nascida na Áustria, país então anexado pela Alemanha, e ela passou a guerra classificada como estrangeira de nação inimiga, sem autorização para viajar sem aviso prévio.
A patente foi carimbada como material sigiloso e trancada. Nenhum dos dois inventores recebeu qualquer valor pela invenção, o prazo de proteção correu em silêncio dentro do arquivo militar, e expirou em 1959 sem que uma linha do sistema tivesse sido comercialmente explorada por eles.
|
|
|